‘Mr Nice’ Howard Marks morre aos 70 anos

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A comunidade canábica internacional perdeu uma de suas figuras mais populares e respeitadas, uma verdadeira lenda. Na noite deste domingo(10), foi anunciado que Howard Marks perdeu sua batalha contra o câncer. Ele tinha 70 anos.

Marks, o ex-traficante de hash que se tornou uma estrela internacional após a publicação de sua autobiografia, foi descrito no The Guardian por seu amigo James Brown como um “verdadeiro herói”, tendo feito muitas “coisas engraçadas, chocantes e ilegais”.

“Ele sempre sorriu”, disse Brown ao The Guardian, “ele era muito sábio, tinha uma visão forte e divertida sobre a vida, ele sempre perguntou como sua família estava. Ele foi um grande homem. Sua falta será sentida por milhares de pessoas que tiveram a honra de conhece-lo”.

Marks, um orgulhoso galês, foi educado em Oxford antes de se envolver com o tráfico de canábis em 1970 após conhecer Mohammed Durrani, um contrabandista de hash paquistanês. Após 18 anos escapando da prisão – período durante o qual ele usou muitos pseudônimos diferentes, incluindo “Mr. Nice” – ele foi finalmente capturado por autoridades norte-americanas em 1988, e foi condenado a 25 anos de prisão na penitenciária federal de Terre Haute. Ele foi solto em liberdade condicional em 1995, tendo cumprido sete anos de sua pena.

Após sua saída da prisão, um brilhante autor e contador de histórias transformou suas muitas aventuras como traficante de hash em uma autobiografia de grande sucesso , “Mr Nice”, que por sua vez se tornou um sucesso mundial dez anos atrás, até que seu bom amigo Rhys Ifans o transformou em um filme com mesmo título. Marks também teve uma aprticipação especial em “Human Traffic”, foi showman no “An Audience With Mr Nice”, teve uma gravadora, e ainda trabalhou como colunista na revista Loaded por cinco anos.

Após revelar que tinha câncer, em uma entrevista para o The Observer em janeiro do ano passado, Marks explicou que ele tinha que “chegar à um acordo com isso do meu próprio jeito – o que pra mim tinha a ver com aprender a chorar. É impossível lamentar qualquer parte que seja da minha vida, quando I me sinto feliz e estou feliz agora, então eu não tenho nenhum arrependimento e não tenho tido por muito tempo”.

Poucas pessoas – e certamente pouquíssimos criminosos – chegaram a atingir o nível de respeito e admiração que se tem por Howard Marks. Um sentimento de tristeza predomina entre aqueles que lutam a mesma luta que ele ajudou a travar tão eloquentemente, e por algum tempo assim será. Marks ele também foi altamente respeitado até por seus adversários. O jornalista Peter Hitchens, um proibicionista de longa data chamou-o de “defensor dos princípios da liberdade de expressão”, apesar de suas óbvias divergências sobre a canábis.

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Marks deixa um legado que certamente irá sobreviver por muitos e muitos anos. No entanto, apesar de todos seus sucessos pessoais, não viver para ver a realização daquela que se tornou a maior missão de sua vida: a legalização da maconha. Mas ele pode descansar em paz sabendo que através do seu trabalho, e da bondade que mostrou aos milhares que sentiam-se ansiosos para conhece-lo onde fosse, inspirou toda uma nova geração à assumir a luta. Ele pode ter perdido a batalha, mas a guerra continua, e cabe à nós ganhá-la também em seu nome.

Assista Mr Nice e conheça a história desse ícone do ativismo canábico:

Clique na imagem para assistir ao filme.

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Hemp para biocombustível pode salvar o planeta

540129_433496503402815_1292454604_nBiocombustíveis à base de Cânhamo pode salvar o planeta!

Como já citado em outro artigo aqui do site, o cânhamo é o nome dado a planta de maconha que têm por finalidade apenas produzir fibras, sementes, ou para outros fins industriais. A distinção legal nos Estados Unidos para o que qualifica como o cânhamo é qualquer planta de maconha que contenha menos de 0,3% de THC. Recentemente, a Associação das Indústrias de cânhamo, um grupo de lobby nacional de cânhamo, emitiu um comunicado esclarecendo sua posição sobre o que tecnicamente pode ser chamado de cânhamo.

A HIA (Hemp Industries Association) tem levantado uma bandeira vermelha nas Stanley Brothers, no Colorado, e muitos outros em todo o país, que estão tentando alegar que qualquer linhagem com menos de 0.3% de THC é automaticamente cânhamo e o óleo que produzem é, assim, o óleo de cânhamo. A HIA vê isso como enganação aos consumidores, uma vez que o óleo de cânhamo é um produto alimentar e essas plantas de maconha não foram efetivamente produzidas em estoques de cânhamo. O óleo que está sendo vendido é realmente um óleo de haxixe e a palavra cânhamo está sendo usada aqui apenas como uma técnica de marketing. Esta estratégia é uma reminiscência de greenwashing, uma técnica em que os comerciantes fazem os consumidores acreditarem que algo é mais ambientalista do que realmente é, e assim passa a ser mais bem aceito socialmente.

Agora que nós já sabemos que o óleo extraído de algumas plantas industrializadas que se dizem “cânhamo” é na verdade óleo de haxixe, ou talvez óleo de maconha, mas certamente não é o óleo de cânhamo, vamos falar sobre o que o óleo de cânhamo realmente é e para que ele pode ser usado. O óleo de cânhamo, como mencionado acima, é um dos alimentos mais densos em nutrientes conhecidos pelo homem, o que deva ser a razão dos seres humanos ter vindo a cultivar essa planta mais tempo do que qualquer outra planta já conhecida.

O cânhamo é também uma planta muito densa de celulose, com entre 67-78% da planta feita de celulose, em comparação com a madeira que tem 40-50% e gramíneas que tem a mísera quantidade de celulose de 37%. O teor de celulose é importante porque a celulose é o constituente utilizado para a produção de biocombustíveis. Embora existam métodos alternativos para produzir biocombustíveis, tais como a conversão de açúcares em combustível, o método da celulose parece ser o mais eficiente, talvez por ele realmente poder produzir biocombustíveis neutros de carbono, ao contrário do etanol de milho, que tem grandes impactos humanos e ambientais. O etanol celulósico parece ser a opção mais promissora de combustível lá fora, mas vai demandar uma quantidade significativa de dinheiro para trazê-la para fora do laboratório e para as bombas de gasolina.

Neste momento três grandes escolas e pesquisadores estão olhando para o etanol celulósico e de biocombustíveis, especificamente do cânhamo. George Huber, na UMass Amherst e da Universidade de Madison, desenvolveu um método há vários anos para celulose ser convertida rapidamente em um combustível a custo muito baixo, ele agora está trabalhando para trazer esta tecnologia ao público através do Grupo de Pesquisa em Biocombustíveis Huber.

O professor Huber tem trabalhado pessoalmente com Bruce Dale da Universidade do Estado de Michigan, para o autor desta peça instigante sobre o futuro dos biocombustíveis. Huber e Dale sustentam que, enquanto temos de acabar com o uso de óleo e começar a usar os biocombustíveis, o cultivo de plantas para produzir biocombustíveis nunca vai fornecer combustível o suficiente. Isto faz com que o método seja ideal, ele pode usar qualquer parte da planta que seria descartada, mesmo que você colocasse para fora todas as semanas em seu vaso. Enquanto o lixo pode preencher as lacunas no sistema que vai precisar de algum cultivo agrícola para produzir a maior parte do combustível, especialmente no início, quando inicialmente a uma transição para uma economia de biocombustíveis. O professor Richard Parnas da Universidade de Connecticut se junta a eles como sendo o único pesquisador a analisar especificamente o cânhamo como base para a produção de biocombustíveis.

Não é só os biocombustíveis, porém, tudo o que a humanidade faz atualmente a partir do óleo pode ser feita a partir de bio-óleo de cânhamo. Você pode estar se perguntando por que eu só estou falando de cânhamo e não gramíneas ou outras opções, é porque o cânhamo é a matéria prima com mais baixo custo e com os rendimentos mais elevados lá fora. Junto com seu rápido crescimento, resistência a doenças e outras características positivas, não há opção melhor do que o cânhamo. A melhor parte do cânhamo é que ele é uma esponja de CO2, absorvendo muito mais CO2 em seu curto ciclo de crescimento do que muitas plantas maiores. Isto significa que se qualquer biocombustível tem uma chance de ser CO2 neutro ou mesmo negativo, ele é baseado em cânhamo.

Legalização da maconha entra em vigor no Alasca

Erva só pode ser consumida em ambientes privados. Repórter que se demitiu ao vivo foi uma das entusiastas de campanha.

O Alasca se tornou nesta terça-feira (24) o terceiro estado norte-americano a legalizar o uso recreativo da maconha, mas os defensores da legalização não esperam a realização de grandes celebrações, visto que permanece ilegal o consumo público da droga.

Na maior cidade do estado, Anchorage, policiais estão prontos para começar a distribuir as multas de US$ 100 previstas, para garantir que o consumo permaneça sendo feito entre portas fechadas.

O Alasca se juntou aos estados de Washington e Colorado a ter o consumo de maconha legalizado.

Uma das envolvidas na campanha pela legalização foi a repórter Charlo Greene. Ela trabalhava em um canal de TV do Alasca e pediu demissão ao vivo em setembro. Na época, ela soltou um palavrão no ar, e disse que fez isso com objetivo de trazer luz ao debate em favor da legalização da maconha no estado.

Greene, que trabalhava na emissora “KTVA”, um canal filiado à “CBS”, tinha terminado de apresentar uma notícia sobre o uso de maconha medicinal em Anchorage (Alasca), quando revelou que ela mesma era a proprietária do local.

“Dedicarei todas minhas forças em lutar pela liberdade e justiça, que começa por legalizar a maconha no Alasca. Para isso, não tenho mais alternativas do que deixar o programa. Estou indo embora”, disse ao vivo a jornalista.

Em novembro, os eleitores aprovaram a legalização com 53% dos votos a favor.

A medida entrou em vigor, entretanto, apenas nesta terça. A partir de agora, os adultos que vivem no estado podem não apenas consumir e ter maconha em sua posse, mas também podem transportá-la, cultivá-la e dá-la a outras pessoas.

Uma segunda fase do processo, que criará um mercado regulado e taxado, não começará antes de 2016.

Enquanto a posse de maconha não é mais um crime no estado, consumir a droga em público renderá mula de US$ 100.

via G1

Maconha é 114 vezes mais segura que álcool, afirma estudo

Um estudo científico comparou os efeitos de sete drogas recreativas nos seres humanos e concluiu que a maconha é a menos mortal delas. O álcool foi considerado a mais mortal, seguido por heroína, cocaína, tabaco, ecstasy, metanfetaminas e, finalmente, maconha.

Os pesquisadores afirmam que o álcool é 114 vezes mais mortal que a maconha. Para chegar a essa conclusão, eles compararam a dose usualmente consumida de cada droga com a dose considerada fatal.

A conclusão foi que consumidores de maconha ficam, normalmente, muito distantes da dose que seria mortal para eles. Por isso, a maconha foi a única das sete drogas classificada como tendo “baixo risco de mortalidade”. As demais foram distribuídas nas categorias de médio e alto risco.

Essas conclusões devem ser vistas com muita cautela. Os pesquisadores não avaliaram outros danos causados pelas drogas aos consumidores. Eles se concentraram apenas no risco de overdose.

Eles também não avaliaram riscos colaterais, como a transmissão de doenças no uso de drogas injetadas com agulhas compartilhadas.

Evidências práticas mostram que o consumo moderado de álcool, por exemplo, é razoavelmente seguro, enquanto o uso regular de heroína pode ser devastador. E os autores da pesquisa não negam isso.

Eles só dizem que, na média, quem bebe tende a chegar mais perto da dose mortal do que quem usa heroína.

O estudo foi publicado na revista Scientific Reports. Traz a assinatura de Dirk Lachenmeier, PhD em química de alimentos e toxicologia da universidade alemã de Karlsruhe; e Jürgen Rehm, diretor do Centro de Saúde Mental e Vícios de Toronto, no Canadá.

via Exame

Maconha pode fazer governo devolver impostos no Colorado

Lucro com a venda da droga é tão alto que estado deve restituir contribuintes em cerca de US$ 7,63

A liberação da maconha no Colorado foi recheada de polêmicas. Visava ao aumento das receitas através da coleta de impostos para, enfim, destinar mais recursos às escolas. Mas uma lei estadual pode levar boa parte desse dinheiro arrecadado diretamente ao bolso dos moradores do estado — causando uma grande dor de cabeça para os legisladores.

A Constituição estadual impõe um teto ao montante de tributos que o Colorado pode coletar sem a necessidade de restituir os contribuintes. E isso significa que os moradores do estado poderão receber uma fatia dos US$ 50 milhões arrecadados em impostos derivados do uso recreativo da maconha no primeiro ano de legalização. A situação é tão bizarra que conseguiu colocar em comum acordo democratas e republicanos — ávidos para salvar cada centavo dos cofres públicos. O imbróglio constitucional surpreendeu e causou divergências até nas lojas que comercializam a droga.

— Não tenho problema em pagar impostos se eles forem destinados à educação — ponderou Maddy Beaumier, de 25 anos.

Mas, para o carpinteiro David Huff, de 50 anos, trata-se de uma boa notícia. Afinal, avalia, os tributos que tornam o preço da maconha 30% mais caros, dependendo da jurisdição, são altos demais.

— Não ligo se eles me derem um cheque, uma restituição através de descontos nos meus impostos ou se me derem um baseado de graça da próxima vez que eu vier. Os tributos são altos demais, eles têm que restituir — queixou-se.

O Colorado, conhecido como “Rocky Mountain” por seu solo rochoso, legalizou a maconha em 2012 e fez história no ano passado ao inaugurar lojas de venda da droga para uso recreativo — com um imposto indireto de 15% e direto de 2,9%. A legalização da droga, porém, esbarrou numa limitação fiscal. Em 1992, uma emenda estadual chamada “Nota do Direito dos Contribuintes” passou a exigir que novos impostos sejam referendados através do voto popular. E mais. Determina, ainda, que o estado devolva aos contribuintes toda a arrecadação que superar o valor de uma certa fórmula, calculada no crescimento da inflação e da população. Seis vezes na História, o Colorado já se viu forçado a devolver dinheiro a seus moradores, num total de mais de US$ 3,3 bilhões.

Democratas e republicanos acreditam não haver motivos para entregar aos contribuintes o dinheiro da venda da maconha. E estão lutando para encontrar uma maneira de reter essa renda — mesmo que seja necessário convocar o eleitorado às urnas para opinar em um referendo.

Após a legalização da maconha, em 2012, os eleitores foram às urnas outra vez no ano seguinte e aprovaram a aplicação de um imposto de 15% sobre a droga para ser destinado às escolas, além de 10% adicionais para os cofres públicos em geral. Calculava-se que essa tributação iria gerar US$70 milhões no primeiro ano. Hoje, o estado calcula que o lucro seja de cerca de U$50 milhões. Mas, como a economia americana está ganhando fôlego e outras fontes de renda crescem rapidamente, o Colorado pode ter que devolver boa parte do que arrecadou. Os números finais ainda não estão fechados, mas fontes ligadas ao governo calculam que esse montante pode chegar a US$ 30,5 milhões — o que daria cerca de US$ 7,63 para cada adulto do Colorado.

via O Globo

 

Crippa em xeque: médico brasileiro quer lucrar com o CBD sintético

A fim de esclarecer a questão sobre a “regulamentação” do canabidiol, a jornalista e estudiosa Susan Witte, autora do livro “O Uso Medicinal da Cannabis”, escreveu um artigo muito interessante em seu site. Trata-se de uma espécie de “dossiê Crippa”, onde os interesses obscuros desse médico podem ser melhor analisados.

No dia 15 de janeiro de 2015, atendi o celular sem reconhecer o número na tela. O Dr. José Alexandre Crippa nunca havia me passado seu número de celular, insistia no número do escritório onde eu nunca o encontrava. Meses após tentar entrevistá-lo – sem sucesso – Crippa me ligava em meu celular, educadamente perguntando se eu tinha tempo para ouvi-lo. Teria ele mudado de ideia? Por que, de repente, uma jornalista independente, sem qualquer vínculo com uma grande emissora, valia uma ligação? Quem sabe a decisão da Anvisa no dia anterior em reclassificar o CBD tivesse liberado seu stress e sua agenda e ele finalmente poderia me conceder aquela entrevista.

Ele me chamou pelo nome, Susan, e começou a falar, soava animado. Crippa dizia não poder estar mais feliz com a decisão da Anvisa. Era hora de colocar as mãos na massa, dizia. Entranhei o tom familiar com que me contava essas coisas, mas continuei ouvindo, ainda tentando compreender o propósito da ligação. Ele estava no aeroporto de Brasília, aguardando seu voo, e me contava sobre seus planos, os próximos passos a serem tomados. Estava muito contente em anunciar uma parceria com um laboratório europeu e que viajaria em breve a Edimburgo, na Alemanha, para buscar 1 kg de CBD.

“CBD natural ou sintético?”, perguntei, ainda confusa, mas curiosa. Ele pausou por um segundo, não esperava a pergunta, mas resolveu explicar. “É um semissintético”, disse. “E você pretende fazer testes clínicos com ele?”, perguntei em seguida. Crippa explicou que testes clínicos não seriam necessários, ele usaria o medicamento em pacientes para registrar os resultados; já estava tudo encaminhado. Ele disse algo sobre eu ter sido selecionada, junto com outros. Ele sabia quem eu era? Me chamara pelo nome, não podia estar me confundindo com outra pessoa ou ter ligado no número errado. Prossegui com minhas perguntas: “Mas, se as crianças com epilepsia têm usado extratos naturais, com outros canabinoides, não é possível que o CBD isolado não funcione?”.

Crippa então me explicou que esse era um argumento usado para enganar as pessoas: “Tem um grupo de pessoas que querem legalizar o recreativo e são contra o puro, porque aí cai o argumento deles”. Decidiu usar os irmãos Stanley (donos de um dispensário no Colorado) como exemplo, afirmando que eles têm uma “fabriqueta quase artesanal” e que eles usam o argumento de que o THC é necessário por interesse comercial, já que o produto que eles têm possui cerca de 1% de THC. Crippa explicou que, como o produto deles é natural e, portanto, impuro, eles têm interesse em publicar que outros compostos são necessários.

Ele disse ainda que muitos usam o argumento de que há um “efeito comitiva” (efeito em que os componentes de uma planta, após ela ter sido consumida, interagem entre si no organismo humano, agindo de forma diferente desses mesmos componentes isolados) no produto natural, mas que isso não é aceito na academia. Segundo ele, não há provas científicas desse efeito, já que todos os estudos foram feitos com CBD isolado. Como os dispensários não conseguem fabricar o CBD isolado, porque sai muito caro, eles se posicionam contra. Todos os estudos sérios – e Crippa exemplifica aqui seus estudos usando o CBD isolado para o tratamento de Parkinson – foram desenvolvidos com componentes isolados.

Dr. Crippa então declarou, com ar triunfante, que “estamos muito próximos de ter um sintético no Brasil”. Haveria uma coletiva de imprensa em março para anunciar avanços nesse sentido. Ele assegurou que testes seriam necessários e que ainda levaria um tempo para ter tal medicamento disponível. Para que testes assim fossem desenvolvidos, precisaríamos de um sintético, já que “como não tem patente, o canabidiol não é de interesse da indústria farmacêutica”. Uma parceria com a indústria seria necessária para desenvolver os caríssimos testes clínicos, já que, nem eles em Ribeirão Preto (USP) conseguiriam arcar com esses custos, mesmo que obtivessem lucro no resultado.

Ele tem toda a razão. A indústria farmacêutica não tem qualquer interesse em fitoterápicos. Plantas não podem ser patenteadas, seus extratos podem ser produzidos por qualquer pessoa e, portanto, não há lucros bilionários a serem alcançados. Componentes sintéticos são outra história, mas são moléculas novas produzidas em laboratório e precisam de todo tipo de testes para serem aprovadas. O processo pode durar dez anos, talvez menos tempo se for acelerado. Uma das patentes de Crippa (de 2014) é o CBD fluorado, uma molécula me-too. Essas moléculas tendem a fazer a mesma coisa que a molécula que imitam, mas, por causa desse flúor que foi pendurado nela, pode ter interações diferentes no organismo, como aumentar ou diminuir a potência de seus efeitos. Estaria o médico contando com a pressão de pacientes desesperados na justiça e na imprensa para acelerar a aprovação de sua droga? Crippa disse ainda que os pais e pacientes podiam pressionar as autoridades para que o medicamento, depois de disponível, ficasse mais barato. Medicamentos recém-lançados, no auge de sua patente, costumam ser caros.

Ele voltou então a explicar que os extratos naturais eram perigosos, por dois motivos. O primeiro deles é que “ficamos preocupados com as impurezas”. Segundo o doutor, até mercúrio já foi encontrado nesses extratos importados. Ele diz não saber se os rumores são verdadeiros ou não, mas que há uma série de contaminantes nesses produtos, especialmente os vindos da China. Outro motivo para não aprovar os extratos naturais é a presença do THC. Segundo ele, o THC, em grandes quantidades pode causar convulsões nas crianças. Lembrei-me de ter ouvido esse argumento antes, não de estudos científicos (não há nada na literatura acadêmica indicando que o THC possa induzir convulsões, mas sim que o composto tem grande potencial para tratar doenças convulsivas), mas de mães assustadas. Crippa dizia que várias crianças que usaram medicamentos com THC voltaram a ter crises convulsivas violentas. Teria sido ele o responsável por espalhar esse rumor?

Exemplo de estudo indicando que a canábis tem efeito positivo em pacientes com convulsões:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2376682/?page=3

Ele também explicou que o THC em crianças pode aumentar a probabilidade de esses pacientes desenvolverem esquizofrenia, fazendo questão de citar o mesmo estudo sueco que cita em suas entrevistas. Essas conclusões são o que chamamos de “Bad Science”. Estudos que verificaram a relação entre o uso de canábis e esquizofrenia foram desenvolvidos (para simplificar bastante) de duas formas: contando quantos esquizofrênicos foram expostos ao uso da canábis ou quantos usuários de canábis desenvolveram esquizofrenia. De fato, há uma relação, já que muitos usuários de canábis desenvolvem esquizofrenia. Isso pode significar que a canábis causa esquizofrenia ou que pessoas com tendência à esquizofrenia têm propensão ao uso de drogas, sobretudo a maconha. Estudos longitudinais, no entanto, verificaram que o aumento no número de usuários de canábis na população não está relacionado a um aumento no número de esquizofrênicos. Ou seja, a relação entre a canábis e a esquizofrenia não é causal.

No entanto, alguns estudos concluem que a exposição à canábis leva ao aparecimento de esquizofrenia pacientes que de outra forma não a desenvolveriam. Alguns chegam até a determinar a relação entre a dosagem e a probabilidade dos sintomas psicóticos ocorrerem. É a ciência da imaginação. Podemos correlacionar qualquer coisa desta forma. O site de Tyler Vigen dá diversos exemplos disso, demonstrando que as conclusões mais absurdas podem surgir da má interpretação estatística. O link abaixo, por exemplo, mostra a correlação entre o número de afogamentos em piscinas e o número de filmes em que Nicolas Cage aparece. Podemos concluir que os filmes de Nicolas Cage causam afogamentos?

http://www.tylervigen.com/view_correlation?id=359

Temo que Crippa saiba disso tudo. Um estudo desenvolvido em 2014, que conta com a participação do médico, determinou que tanto o CBD quanto o Win 55212 (análogo sintético do THC, mas com potência superior) ajudam a reverter quadros psicóticos em modelos animais (ratos) de esquizofrenia. A seguir, o link para o estudo:

http://journal.frontiersin.org/Journal/10.3389/fphar.2014.00010/abstract

Existem ainda outros estudos (alguns em humanos, mas com um número pequeno de pacientes) em que a esquizofrenia foi tratada com THC apenas. Isso indica que a relação entre a canábis e distúrbios psicóticos é muito mais complexa do que Crippa tem afirmado, propositalmente dando a impressão de que o THC é perigoso, mas o CBD é bom, sozinho.

Eu havia conversado com diferentes famílias com crianças portadoras de epilepsia, e escutei que, em muitos casos, a presença do THC era necessária. Jason David, da Califórnia, conta que seu filho, Jayden, precisa de uma dose de THC superior a 1% para controlar suas crises. Plantas e extratos com doses menores não funcionaram. Contei o caso para o Dr. Crippa, que não se deixou abater com o argumento. Ele respondeu que seria uma questão de aumentar a dose de CBD, não haveria a necessidade do THC. Disse ainda que, no caso de um pai que não tem mais o que fazer, dar o extrato natural era a única alternativa. Nesses casos, era melhor que desse o medicamento impuro mesmo, mas Crippa estava confiante de que poderia fornecer uma alternativa superior com seu CBD isolado sintético.

Ele afirma, em seguida, que o THC não é tão perigoso para adultos e, portanto, também pretende desenvolver medicamentos com THC e CBD combinados para tratar, principalmente, a esclerose múltipla. Ele deixa claro, no entanto, que só quer desenvolver medicamentos “puros”, componentes isolados, nada natural. Apesar de ele ter afirmado que o efeito comitiva não era cientificamente aceito, ele menciona as interações entre o THC e o CBD e como elas podem ajudar o paciente.

A partir daí, Crippa passou a explicar procedimentos e perguntar sobre quais exames eu havia feito. Foi então que compreendi: “Acho que você está me confundindo com alguém, eu não sou paciente, sou jornalista”. Ele notou seu erro: julgando que falava com uma paciente, revelou uma série de informações sigilosas. Um comentário me chamou a atenção: “Bem que eu estranhei, você sabia tanta coisa”. Ele parecia bem consciente da falta de conhecimento de seus pacientes (não os julgo, é difícil mesmo encontrar informações confiáveis quando se trata de canábis) e ao notar que eu sabia um pouco mais passou a usar toda a sua habilidade argumentativa para me convencer de que o seu caminho era o mais indicado, o mais confiável. Talvez por isso advogava contra o THC com aqueles argumentos batidos.

Tentou então medir o estrago: “De que veículo você é?”. Expliquei que havia trabalhado em um projeto independente (se lembrou então de quem eu realmente era) e que não estava trabalhando pois me mudaria para a Inglaterra no mês seguinte. Achei que ele fosse entrar em pânico e desligar o telefone, mas foi muito educado. Crippa perguntou para qual cidade eu iria, já que ele mesmo fez pesquisas em Londres, me desejou sorte na carreira e, antes de desligar o telefone disse: “Eu falei algumas informações sigilosas para você, achando que era outra pessoa, não fala pra ninguém, tá?”.

Refleti sobre esse último pedido durante vários dias. Como jornalista, há um conflito ético com o qual eu teria que lidar. As informações caíram acidentalmente no meu colo, o que eu faria com elas? Pensei nas repercussões de revelá-las, conversei com algumas pessoas pedindo conselho. O peso de não revelar a estranha conversa, no entanto, parecia maior. Pacientes têm confiado na opinião de médicos, têm colocado suas esperanças na indústria, diversas pessoas foram iludidas a pensar que um medicamento natural era perigoso. Milhares de brasileiros estão sem tratamento hoje, enquanto um remédio eficaz poderia estar plantado em seus próprios quintais, de graça. Enquanto isso, pais perdem seus filhos para convulsões excessivas; famílias perdem entes queridos para o câncer, esclerose múltipla, Aids; pacientes sofrem desnecessariamente dores crônicas que os invalidam.

A decisão da Anvisa favoreceu o caminho mais longo, não necessariamente mais seguro, e mais lucrativo para a indústria. Enquanto a forma natural da canábis estiver proibida, a maior parte da população não terá acesso a esse tratamento. Enquanto as pessoas não tiverem informações sobre o assunto, a erva permanecerá proibida para uso medicinal. Eu não me perdoaria se segurasse informações e favorecesse esse caminho.

via Susan Witte Blog