Dezarie, a diva do reggae

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Trazendo um som pesado e letras fortes, a cantora Dezarie volta ao Brasil e contempla a nação regueira com uma série de shows inesquecíveis.

Após anos de espera, o público regueiro prestigia o retorno de Dezarie, o maior ícone feminino no cenário do reggae mundial. Em entrevista exclusiva ao Projeto CHARAS ela conta como começou a carreira de cantora e se transformou na referência que é hoje. Dezarie fala sobre sua experiência com a Ganja e ataca a proibição da erva, que é um sacramento sagrado para o Rastafari. Com muita graça e simplicidade, ela esbanja um grande carisma e conquista todos com sua voz doce e suave (muito diferente da voz forte e potente utilizada para louvar à Jah). Acompanhe a entrevista e conheça um pouco mais sobre essa brilhante cantora que conquistou o mundo levando uma mensagem de amor e paz por onde passa.

Você conhece outras mídias de cultura canábica além do Projeto CHARAS, como a High Times Magazine nos EUA, por exemplo?

Sim, conheço. Já li algumas matérias, acho muito interessante esse tipo de publicação.

O que você pensa sobre a proibição da erva? Essa proibição te afeta ou já te afetou de alguma forma?

Sim com certeza. Inclusive quando eu vim para o Brasil eles me revistaram e me confiscaram, porque eu estava trazendo maconha. A erva é pura medicina. Ela cura muitas coisas. Inclusive para mim. Ela pode ser usada para muitas enfermidades como asma, glaucoma… câncer. Em Israel estão tentando legalizar, não me recordo se está legalizado já. Na Califórnia sim, já é legalizada. Você tem um cartão e pode comprar numa dispensaria. No meu país não, infelizmente. Se te pegarem portando ou cultivando erva você vai direto pra cadeia. Mas é só uma erva, não é uma droga. Portanto não deveriam proibi-la dessa forma. é uma erva como qualquer outra, e pode ser encontrada em qualquer lugar.

É sabido que a religião Rastafári utiliza a Ganja de maneira sacramental. Mas você conhece algum caso próximo onde a pessoa tenha utilizado de maneira medicinal, para tratar alguma enfermidade?

Conheço muitas pessoas. Como eu disse, hoje há muita pesquisa. Na Europa mesmo, muitos institutos de pesquisa estão vendo o que a Ganja pode fazer com o câncer. Eles já descobriram que ela destrói tumores de câncer. Ela é boa para o seu corpo, para o seu cérebro. Te deixa calmo, é muito bom. Não tem nada de errado, não tem nada de perigoso. No máximo o que acontece se fumar muita Ganja é que você vai dormir.

E você? Já utilizou de maneira medicinal?

Sim, para diversas doenças. Mas também uso de forma sacramental. Uso na minha espiritualidade. Para falar com Deus.

Acredita que a erva seja de fato a cura da nação?

Ela é, claro que ela é. Ela não só cura, como une as pessoas. Diferentes raças, diferentes línguas, diferentes cores de peles unidas pela Ganja. E ela cura, ela cura o corpo de muitas doenças. Eu a vejo sim como a cura das nações. Até a polícia a usa. Os advogados, os juízes. Todo mundo.

Aqui no Brasil, uma das maiores bandeiras do movimento canábico é o cultivo caseiro pra consumo próprio. Você, já plantou? Já teve essa experiência com a Ganja?

Não posso dizer publicamente, pois não é legalizada em meu país. Mas sim, eu já tive experiências com o cultivo, já vi plantas e diversos cultivos. Não há nada de errado com quem quer plantas sua própria maconha. Conheço muitas pessoas que plantam.

Aqui existe um líder religioso rastafári e forte militante pela legalização no país, o Ras Geraldinho, que foi preso pela quarta vez, por cultivar maconha para fins religiosos em seu sítio. Nos países que visita, ou mesmo em Saint Croix, costuma ver esse tipo de injustiça contra os Rastas que plantam sua própria erva?

Sim, muita injustiça. Vejo contra os rastas e contra todas as pessoas que fumam ganja no meu país. Todos que declaram que fumam, ou que seja rasta sofre muita perseguição da polícia. Penso que o Governo e a Polícia lutam desnecessariamente contra a Maconha ao invés de atacar outras drogas, que na verdade são muito mais perigosas. Elas causam doenças e matam pessoas por ai. E o Governo foca na maconha. Acredito que uma das razões é porque quando você uma Ganja, ela abre a sua mente. Você presta atenção em coisas que não tinha prestado antes. Vê uma injustiça que nunca tinha visto antes. Começa a pensar de uma maneira diferente. Por isso eles lutam tanto contra a ganja. Você passa a pensar muito mais. Há uma grande injustiça muito desnecessária. Eles atacam mais a maconha que cocaína, êxtase, e várias outras. Não deveria ser assim.

Na última semana, pela primeira vez na história dois estados americanos legalizaram a maconha para uso recreativo. Uma vez que os EUA costumam ditar as regras para o resto do mundo, você acredita que esta mudança possa influenciar outros países à legalizarem a maconha também?

Talvez. Acho que pode fazer com que muitos países prestem mais atenção ao assunto. Mas não sei se eles chegarão a legalizar. Muitos motivos para a ganja ser proibida tem a ver com lucros. Não sei se estarão dispostos a perder isso.

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Pra você, qual a relação Marijuana e música?

Eu nunca escrevi uma música sem ganja. Eu não gosto de cantar sem ela. Na primeira música que eu escrevi eu estava “alta”. Eu acho ótimo. A ganja traz inspiração e faz você pensar muito profundamente. Ela é a conexão entre minha música e minha espiritualidade.

Tem preferência por alguma linhagem específica? Ou ganja é ganja?

A erva da nossa casa sempre é melhor, mas tem muitas linhagens boas. Não me prendo à uma linhagem específica. Mas sendo verde, está bom! Eu não uso por diversão, é a minha religião. Não saio na rua fumando um baseado. Costumo fumar como medicina e espiritualmente.

Como surgiu seu interesse pela música? Desde criança você se interessava pelo canto ou já pensou seguir outra carreira?

Eu sempre cantei, desde muito pequena. Meu pai tocava muitas músicas; os irmãos da minha mãe tocavam muitos instrumentos; meu pai tinha dois irmãos que cantavam em uma banda. Então eu sempre tive a música muito próxima de mim, sempre ouvi muita música e gostei de cantar. Meu pai sempre chamava eu e minha irmã para cantar. Todos nós cantávamos. Eu sempre soube que queria ser cantora, mas nunca soube se de fato seria, se isso aconteceria. Eu sempre estive em escolas de canto, no coro da igreja, sempre me apresentei cantando.

O que te inspira no processo de criação?

A vida e as coisas que acontecem na vida. Quando eu vejo opressão no mundo, isso me inspira a escrever. Quando eu vejo pessoas sofrendo eu quero escrever. Quando eu ouço quem é Jah, eu quero cantar. A vida me inspira, as pessoas ao meu redor, as coisas que eu vejo.

Quais são suas referências musicais?

Midnite com certeza é uma das mais fortes influências na minha música. Mas muitos outros me influenciaram quando eu comecei a cantar em Londres. Burning Spears, Israel Vibration… Bob Marley claro. São algumas das minhas influências.

Em seu último trabalho, o “The Fourth Book”, nota-se um tom mais pesado nas músicas, as vezes até “sombrio” como no caso de Roots and Culture e Not Yours. Mesmo em músicas mais leves como Defend Right, a música está com uma sonoridade mais pegada, mais concentrada. Trata-se de uma proposta para o álbum, essa sonoridade mais forte? Talvez uma tendência para os próximos álbuns?

Digamos que esse foi o jeito que ele aconteceu. Não planejei ele. Quando sentei para escrever, foi assim que ele saiu. A música é sempre pura, busco produzir músicas com uma boa intensidade. E muita pureza. Porque são músicas de Jah e é para ele que canto. Cada CD é diferente. Nunca planejo nada. Eles simplesmente brotam.

Sinceramente, você prefere o reggae jamaicano ou o das ilhas virgens?

Ah… eu gosto de todos os reggaes. Porque cada um deles tem seu próprio sabor. O reggae na Jamaica tem um jeito, nas Ilhas Virgens outro. O importante é que tragam sempre uma boas mensagens. Desde que sejam para Jah, eu gosto. Gosto inclusive do reggae brasileiro!

Sério? O que acha?

Na minha última visita, pude comprar alguns CDs. Infelizmente não pude entender exatamente as mensagens, não compreendo direito que cantam. Mas gosto da vibe, gosto da musicalidade.

Como foi a receptividade em Vitória e Salvador? Gostou da vibe da galera?

Sim! Foi muito bom. Muita energia. As pessoas respondiam e cantavam juntas. Jah estava lá, podia sentir. Foi uma ótima experiência pra mim, muito positiva.

Da última vez que esteve no Brasil, em 2009, infelizmente não pôde se apresentar em São Paulo. Qual sua expectativa para os shows aqui no Estado, amanhã e dia 24? Acha que o público está “duplamente ansioso” para lhe ouvir cantar?

Eu não posso saber como o público se sente, mas em todo show que faço eu sempre espero o melhor. Sempre espero boas vibrações do público. Sempre busco uma ótima vibe. Acho que serão ótimos shows!

Já veio ao Brasil sem ser a trabalho? Chegou a aproveitar algum lazer aqui no Brasil?

Na verdade ontem em Salvador foi o primeiro dia que eu pude “dar uma volta” pelo Brasil e adorei! Foi a primeira vez que pude visitar uma cidade aqui. Adorei conhecer os lugares, ouvir a história e conhecer a cultura. A cultura brasileira é muito rica, muito especial. Tem um passado de escravos negros, irmãos vindos da África. Há um mix muito grande de raças. Índios no Amazonas. Há muita cultura e história aqui.

Você é o maior ícone feminino no cenário mundial do reggae. A Diva, a Imperatriz é como te chamam. Acredita que pode abrir caminho para que outras cantoras de peso surjam no meio de um cenário dominado pelos homens?

Eu sei que posso e eu já fiz isso, porque podemos ver que hoje há muito mais cantoras do que na época em que comecei. Há mais mulheres na indústria que antes. Na Jamaica existem algumas mulheres cantando e trilhando o caminho. Mas sei que inspirei muitas cantoras, porque já ouvi muito isso delas mesmas. Fico muito agradecida de ter sido um exemplo.

Você já visitou a África? Como foi essa experiência?

Não, infelizmente nunca tive essa experiência. Mas eu sempre ouvi lindas histórias de lá. Tenho muitos amigos que vão pra lá, mas voltam para ouvir minha música. Mas a África está sempre no meu coração, agora mesmo por exemplo.

 

*Essa entrevista foi concedida em Novembro de 2012, na véspera do show em São Paulo. Veja aqui fotos do Encontro das Tribos de Setembro de 2013, segundo ano seguido que Dezarie vem ao Brasil.

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