LSD pode ajudar alcoólatras a pararem de beber, segundo cofundador do AA

 

Bill Wilson, cofundador do AA, não só usou LSD por muito tempo, como também acreditava que o ácido pode ser um grande aliado contra o alcoolismo.

Bill Wilson, cofundador do AA, não só usou LSD por muito tempo, como também acreditava que o ácido pode ser um grande aliado contra o alcoolismo.

Para Bill Wilson, o LSD poderia ser uma poderosa ferramenta contra a dependência alcoólica. Ele próprio passou a tomar ácido e relatou muitas experiências positivas para o tratamento.

A “teoria do ácido” de Bill Wilson assustava a maioria dos membros do Alcoólicos Anônimos (AA), que recusaram a aceitar essa possibilidade como tratamento contra a dependência alcoólica. Para o cofundador do AA, o LSD poderia ser usado para curar alcoólatras, combatendo a depressão e ajudando em sua recuperação, que é muito debilitante na maioria das vezes.

Suas ideias foram encontradas em uma carta na década de 50, onde ele argumentava com o Padre Ed Dowling – um padre católico e membro de um grupo experimental formado em Nova York por Bill – para explorar o potencial espiritual do LSD no tratamento contra o alcoolismo.

Cerca de 20 anos após a criação do movimento de sobriedade baseado em Ohio (em 1935), Bill Wilson chegou a acreditar que o LSD poderia ajudar “alcoólatras cínicos” a alcançarem um “despertar espiritual” e iniciar o caminho para a recuperação.

A descoberta de que Wilson considerou o uso da droga como uma ajuda para a recuperação de viciados em álcool foi feita por Don Lattin, autor de um livro publicado em outubro de 2012 pela University of Califórnia Press, intitulado “Bebidas Destiladas”.

Lattin encontrou cartas e documentos que revelam que Wilson, em um primeiro momento, lutou contra a ideia de que uma droga poderia ser usada para superar a dependência de outra. Entretanto, o LSD (que foi sintetizado pela primeira vez em 1938) é uma substância que não causa dependência, mas na época não existiam estudos suficientes sobre a substância. Wilson pensou inicialmente, que o LSD poderia ajudar a entender as alucinações induzidas pelo álcool (frequentemente vivenciadas pelos dependentes), e acreditava que isso poderiam de certa forma “aterrorizar” os alcoólatras a mudar seus caminhos.

Mas depois de sua primeira viagem de ácido (LSD), na Administração de Veteranos (AV) do Hospital de Los Angeles, em 29 de agosto de 1956, Wilson começou a acreditar que era na verdade um insight, e não o terror, que poderia ajudar na recuperação do alcoolismo.

“Um poder maior do que nós mesmos, que poderia nos devolver a sanidade. A visão e insights proporcionados pelo LSD podem criar um forte incentivo contra o vício – pelo menos em um considerável número de pessoas”.

Bill acreditava que o LSD, imitando a insanidade, poderia ajudar os alcoólatras a alcançarem o princípio central do programa dos “Doze Passos” proposto pelo AA. Ele acreditava que era uma questão de encontrar “um poder maior do que nós mesmos”, que “poderia devolver-nos à sanidade.” E alertou: “Eu não acredito que o LSD tenha qualquer propriedade miraculosa de transformar espiritualmente e emocionalmente doentes em sadios da noite pro dia. Ele pode ajudar a alcançar uma meta, afinal de contas, é um ego-redutor temporário.”

Wilson é conhecido por ter tomado LSD em experiências supervisionadas na década de 50, com Betty Eisner, um psicólogo americano conhecido pelo uso pioneiro do LSD e outras drogas psicodélicas como auxiliares à psicoterapia, e Sidney Cohen, um psiquiatra de Los Angeles.

“Estou certo de que a experiência com o LSD me ajudou muito”, escreveu Wilson em uma carta ao escritor, cientista e filósofo Gerald Heard. “Eu me vejo com uma elevada percepção das cores e uma forte apreciação da beleza, coisas que foram quase destruídas pelos meus anos de depressão”.

Em um discurso feito em 1976, Humphry Osmond, o psiquiatra britânico que inventou a palavra “psicodélico”, disse que contou à Wilson em 1956 “que o LSD era uma boa novidade”.

Osmond disse: “Mas [Wilson] estava longe de se satisfazer com a ideia de alcoólatras simplesmente utilizarem uma estranha substância química para se curarem. Mais tarde, Bill ficou extremamente interessado e comparou sua experiência com o LSD à sua visão de ver uma cadeia de alcoólatras ao redor do mundo, todos ajudando uns aos outros. Isso gerou vários escândalos no AA. Eles eram muito ambivalentes quanto ao seu grande fundador tomar LSD. No entanto, o AA não teria existido se Bill não fosse um tipo de espirito aventureiro”.

Lattin ainda encontrou cartas em que Eisner descreve os pensamentos de Bill Wilson quando frequentou o hospital da Administração dos Veteranos, em 1956, onde tomou LSD em um experimento controlado com o próprio Wilson, Cohen e a esposa de Wilson, Lois. “Os Alcoólicos Anônimos estão realmente pensando em utilizar o LSD como tratamento”, escreveu Eisner. “Os alcoólatras chegam à um ponto do programa, onde eles precisam de uma experiência espiritual, mas nem todos são capazes de ter uma.”

Em uma carta a Heard, em setembro de 1956, pouco depois de sua primeira experiência com LSD, Wilson admitiu que estava apreciando o valor da substância. “Eu sinto um resíduo daquela sensação e um sentimento de grande beleza que ao que me parece, permanecerá em mim”.

Poucos meses depois, Wilson estava ainda mais animado com os efeitos positivos a longo prazo. “Cada vez mais, me parece que a experiência com o LSD tem realmente um efeito positivo a ser sustentado”, escreveu ele à Heard em 4 de dezembro de 1956. “Minhas reações às coisas definitivamente melhoraram e eu não vejo outra razão se não pelo uso do LSD”.

De acordo com o autor de sua biografia oficial, Wilson sentiu que o LSD “ajudou-o a eliminar várias barreiras criadas pelo ego, que se interpõe no caminho de nossas experiências diretas com o cosmos e Deus. Ele pensou ter encontrado algo que poderia fazer uma grande diferença na vida de muitos que ainda sofrem com o alcoolismo”.

Mas, segundo o Pass It On, publicado em 1984 pela AA World Services, em Nova York, o movimento era totalmente contra as sugestões de Wilson. “As atividades de Bill chegaram à nossa comunidade e houve repercussões inevitáveis no AA, onde a maioria dos membros se mostraram violentamente contra suas experimentações com uma substância que altera a mente. O LSD era totalmente desconhecido, mal pesquisado e inteiramente experimental – e Bill estava tomando isso”.

É evidente que tanto naquela época quanto hoje, o conservadorismo e preconceito continuam dominando o debate na busca de tratamentos alternativos, seja para a dependência em álcool ou qualquer outra doença. Ainda faltam muitos estudos nesse sentido, mas desde o início, o LSD tem sido utilizado como peça fundamental em diversos tratamentos, tanto médicos quanto psicológicos. É seguro afirmar que o futuro do LSD como medicamento auxiliar é bastante promissor, basta quebrarmos as algemas do proibicionismo e conservadorismo, abrindo a possibilidade para pesquisas mais profundas. Num futuro próximo, tomar “ácido/doce” vai deixar de ser sinônimo de curtição, e passará a ser considerado um caminho para a saúde física e metal.

 

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