Diário de um maconheiro #01: o dia que fui barrado no DENARC

Antes de começar a escrever essas linhas, pensei bastante se valia a pena ou não. Tanto, que o episódio que vou descrever hoje aconteceu há mais de um mês. Mas não consigo me conter quando eu vejo os absurdos que o proibicionismo provoca na nossa sociedade, principalmente quando começo a perceber o nível da argumentação proibicionista. Por isso, iniciarei este diário hoje, a fim de mostrar um pouco do processo de assinar um 28 (antigo 16) por ser maconheiro.

Mas afinal, do que se trata? Bom, eu sou um designer, maconheiro, jardineiro, ativista e “cai” com 40 plantas na minha casa. Por conta de uma denúncia anônima (zé povinho, x9) em 2012, a Polícia Civil foi à minha casa e confiscou todas as minhas plantas, meu material e minha paz. Sorte que eu estava no serviço, fui avisado por celular do que estava se passando e não fui pra casa. Acionei a galera do Growroom, que fizeram um excelente trabalho jurídico. Antes mesmo de eu ir até a delegacia, um dos consultores jurídicos do GR foi à delegacia e esclareceu tudo com o delegado. Explicou que sou ativista, trabalho na causa, não gero renda com minhas plantas, etc. Só fui na delegacia no dia seguinte, pra dar meu depoimento e conversar com o delegado. Graças à essa valiosa ajuda do GR, consegui me livrar de uma acusação de tráfico, completamente incabível, ignorante e preconceituosa. Eu corria o risco de ser condenado de 5 à 15 anos de cadeia por ter cultivado aquelas plantas, sendo que não renderia fumo suficiente nem mesmo pro meu consumo!

Enfim, o processo desenrolou, e em dezembro de 2013 recebi uma intimação pra comparecer à uma audiência para tratar sobre o caso. No dia da audiência haviam outros usuários na sala comigo, nenhum falava. Todos quietos, como se tivessem feito a pior das merdas. O juiz muito presunçoso, começando a dar liçãozinha de moral, falando sobre como nós começamos na maconha e terminamos mortos pelo crack. Nesse dia ainda me contive, porque achei que não era o melhor momento pra abrir a boca e falar de antiproibicionismo – e de fato não era. Todos nós daquela audiência fomos condenados à assistir aulas educativas no DENARC por 2 meses, duas vezes por semana. E sai feliz dessa audiência, achando que seria um saco, mas que pelo menos tinha dado tudo certo.

Felicidade? Doce ilusão. Comecei a meditar sobre o DENARC e o que essa pena significava pra mim. Ai que eu comecei a tomar dimensão do verdadeiro saco que seriam essas aulas. O DENARC é coração da corrupção policial relacionada ao tráfico de drogas! Não faltam casos de políciais corruptos envolvidos com o tráfico, diretores que protegem traficantes, droga que é desviada, grana que é escondida, suborno, mutreta… maldade. Mas também comecei a analisar que talvez tudo isso tenha um propósito, e resolvi tentar abraçar essa ideia.

Agora começa de verdade a nossa história! Não lembro exatamente qual dia de dezembro, mas no mês passado eu fui fazer a matrícula no DENARC, lá no Tiradentes. Lembro que era o último dia do prazo que eu tinha pra fazer a matrícula. Porém, eu fui decidido a dar o meu “recado”. Sou ativista pela legalização, já participei de debates anteriormente e conheço bem o discurso proibicionista. Queria deixar muito claro pra qualquer um lá, que eu não vou mudar. Se alguem vai dobrar, são eles. E por isso eu fui fazer a matrícula com a camiseta da Marcha da Maconha!

Acho que foi a ideia mais idiota que já tive. Não passei da portaria! Falando em portaria, quero registrar a sensação ruim que sinto toda vez que vou naquele prédio. Esse departamento é simplesmente nojento e é possível sentir o cheiro podre de longe. Só de entrar na rua tu consegue sentir uma coisa ruim, uma energia que se intensifica demais quando você entra no prédio. O ar lá é pesado, o clima, as paredes frias, a corrupção lá é quase palpável. Praticamente todos os policiais que ví, ou tinham anel de ouro, ou corrente de ouro, ou pulseira de ouro, ou relógio de ouro (quando não todos os acessórios juntos). Me pergunto como que esses policiais conseguem acumular tanta riqueza, a ponto de bancar essa ostentação toda, com o salário ridículo que eles ganham. E foi dois desses bonitões que me barraram logo na entrada.

Ao chegar lá no DENARC, me dirigi à recepção, onde tem um balcão onde os visitantes se identificam, fazem um cadatro e pegam o crachá de acesso. Neste dia, eu estava de chinelo, bermuda, camiseta da Marcha da Maconha e um boné. Nenhum policial reparou na minha vestimenta quando entrei no prédio, porém tinham dois conversando nesse balcão, e um deles olhou pra minha camiseta.

Pronto! Era o que eu queria, mas não esperava os desdobramentos seguintes. Na hora que o coxa viu o logo da Marcha, pude reparar bem quando seus olhos arregalaram e ele perdeu por um instante o fio do pensamento. Simultaneamente à isso, a recepcionista me entregava meu crachá e me explicava como chegar à DIPE, que é onde eu devo fazer o curso. Ao passar pela catraca, o policial enxerido, que estava à menos de dois metros de mim e ainda conversava com o outro, começou a falar:

– Marcha… marcha do que? Marcha da Maconha?!

Parei e respondi:

– Exatamente, qual o problema?

Ele continuou:

– Você é meio cara de pau né? Sabe onde você está? Não tem vergonha de vir aqui, com essa camiseta, fazer apologia às drogas? Aqui? No DENARC? Maconha está proibída, não sei se você sabe.

Já começando a tremer pela adrenalina, mas ainda firme, respondi:

– É… a maconha sim, mas que eu saiba usar camiseta ainda não foi proibido. Qual o problema em usar essa camiseta?

E ele:

– O problema é que você está fazendo apologia às drogas, e isso é crime! Você esnoba todos os profissionais desse prédio. Podia te prender por isso.

Ai não aguentei e soltei:

– Então prende. O STF já foi bem claro em 2011 quando regulamentou a Marcha e falou sobre a questão da apologia. Isso não é apologia. Só quero fazer a matrícula na DIPE, ok?

Então ele disse:

– Ok, vai lá então.

Passei por aqueles dois policiais de cabeça erguida e peito estufado, mas me cagando por dentro! Eu tava suando também, e resolvi passar no banheiro pra dar uma geral. Nesse tempo, o policial encrenqueiro se adiantou e foi na DIPE na minha frente, fofocou com os outros por lá, e quando eu sai do banheiro, já estava ele e outro policial (cheio de ouro também) me aguardando, pra falar sobre o ocorrido.

Me explicaram que com aquele traje eu não poderia fazer a matrícula. Falaram que há casos em que permitem a permanência no prédio, quando vêem que a pessoa é mais humilde, mas que não poderiam me autorizar, ainda mais que eu estava lá fazendo apologia as drogas dentro do prédio.

Quero ressaltar aqui o ódio com que esses dois policiais olhavam pra minha camiseta. Comecei a perceber ali que realmente os policiais são seres não pensantes, programados. Olhavam pro logotipo da Marcha como se fosse pular da camiseta e esfaquear eles. Eles tinham medo do logo, medo do que a camiseta simbolizava e ficaram muito emputecidos com a minha atitude.

Começaram a me dar um sermão, falando que eu não deveria mais ir com aquela camista nem aqueles trajes. Que fariam um favor pra mim e permitiriam que eu fosse fazer a matrícula outro dia (pois aquele era meu último dia de prazo), mas que eu precisava estar trajado “adequadamente”. Eu percebi que o melhor a fazer ali era concordar e sair o mais rápido possível de lá. Se me revistassem iam encontrar logo dois baseados boladinhos na mochila. Se estavam enchendo o saco por causa da camiseta, imagine se achassem a ganja. Fiquei quieto, ouvi tudinho e falei que voltaria lá outro dia trajado adequadamente. Falei que não sabia que não podia entrar de chinelo e bermuda.

Não deixaram sequer eu seguir pelo prédio, me encaminharam de volta pra portaria e nem se despediram. Sai de lá meio apavorado, orgulhoso e desapontado. Não queria voltar lá outro dia só pra fazer a matricula, mas meu recado foi dado: sou maconheiro, sei o que falo e vocês não me mudarão! Acendi um beck antes de chegar no final da rua do DENARC, e segui voltando pra casa, analisando todo o episódio e o quão absurdo foi tudo isso.

É triste que policiais sintam tanta raiva de uma camiseta. Não há outra palavra pro que eles demonstraram a não ser raiva. Eles se acham completamente prestativos na função que ocupam, enxugando gelo e se corrompendo, mas não passam de energúmenos com uma pistola, chafurdando na lama afim de achar alguma coisa que sustente seus egos doentios. Se fossem minimamente espertos e sensatos, não teriam agido da maneira que agiram em relação a minha camiseta, uma simples camiseta. Parece até os outros PMs lá, que meteram dois tiros no Fabrício porque ele estava com um estilete.

Cheguei em casa mais decidido que nunca à não me render e na medida do possível bater de frente lá dentro. E tive sorte, porque quando fui fazer a matrícula, em um outro dia, acabei conhecendo o professor Senna, e este me pareceu bastante sábio e paciente, do tipo que ouve antes de sair apontando o dedo – e eu não estava errado. O professor Senna me deu liberdade e espaço pra poder falar sobre meu ponto de vista, sem me condenar precipitadamente.

Já tive minha primeira aula no DENARC e foi por isso que decidi de fato começar esse diário. Tenho que confessar que provavelmente eu não irei relatar todos os dias de aula, mas pretendo trazer sim todos os principais pontos desse curso ultrapassado. E é isso que quero trabalhar nesse diário, o quão ultrapassado é esse curso do DENARC, pois é baseado em achismo e preconceito, é baseado no sistema proibicionista.

Simpatizei demais com o professor Senna, mas tenho que confessar que, pelo menos em relação à maconha, ele não dá nem pro cheiro. Qualquer canabista com um nível médio de instrução no assunto já desarma os argumentos dessa aula. É por isso que estou animado pra receber perguntas lá. Sei que já estou visado lá, mas também sei que ninguém mais vai falar de maconha comigo como se eu fosse uma tela em  branco, esperando pra receber a tinta. Se quiserem abordar a ganja, vão ter que estudar um pouco pra poder debater comigo.

No meu próximo relato vou falar sobre o meu primeiro dia de aula e a reação do professor Senna ao descobrir que eu entendia tanto sobre o assunto. Esse curso ainda vai dar muito pano pra manga. Estou ansioso pra levar um pouco de luz para aquele lugar e no final desses dois meses, espero colher uma declaração positiva desses professores do DENARC.
Querem me dobrar e me fazer acreditar que eu tenho algum tipo de problema, sou desviado, de que preciso de ajuda. Mas vou mostrar que quem precisa de ajuda na verdade são eles e que a legalização é só uma questão de tempo.

Até a próxima.

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