CBD também é maconha e pode ser produzido em casa

 

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A legalização brasileira está em plena construção, mas que tipo de legalização queremos?

Quando os ativistas canábicos começaram o ano, jamais poderiam imaginar que o processo da sonhada legalização avançaria tanto em tão pouco tempo. De janeiro pra cá, nada menos que três iniciativas buscando legalizar a maconha foram encaminhadas no Congresso Federal: uma iniciativa popular que recebeu apoio de mais de 20 mil pessoas, cuja qual o relator é o senador Cristovam Buarque, e mais dois projetos de lei propostos pelos deputados Jean Wyllys e Euríco Junior. Mas o principal e mais forte impulso na legalização não veio da esfera política.

Além dessas iniciativas, houve um fato histórico e sem precedentes que abriu as portas para um novo nível no debate. Trata-se do caso da pequena Anny Fisher, uma garotinha de 5 anos que sofre de epilepsia e é tratada com maconha medicinal (até então importada ilegalmente por seus pais). O drama da família ganhou destaque nacional, por meio da internet e televisão. Após a divulgação na internet de um vídeo no qual Katiele Fisher (mãe de Anne) narra como o óleo de maconha ajuda nas crises e convulsões da filha, o caso chamou atenção da poderosa Rede Globo, que por sua vez transmitiu para milhões de brasileiros por meio de vários programas, jornais, revistas. O caso ficou bastante conhecido no país e pouco tempo depois a família ganhou na Justiça o direito de importar o medicamento feito à base de maconha. A decisão judicial impede a agência de barrar a importação do produto, que é legalizado nos Estados Unidos.

Esse fato também incentivou a mobilização de outras mães de crianças com epilepsia pela busca da autorização e utilização de importação, mães essas que estão em vias de formalizar uma associação em busca desse direito. Diante dos fatos e da crescente pressão, a ANVISA anunciou que estuda reclassificar o CBD e autorizar a prescrição de medicamentos à base do canabinóide.

Esta medida será votada hoje pelos diretores da agência e muito provavelmente será aprovada. Com esta decisão, a substância passará a integrar a lista de classificação C1, que permite a prescrição e a importação do composto em forma de medicamento. Este é sem dúvidas mais um passo importante em direção à plena legalização.

Interesses industriais

Mas que lindo seria se tudo fosse tão simples quanto parece né? É exatamente aqui que começam os problemas. Como mídia social e um dos principais canais canábicos brasileiros, o projeto Charas tem por obrigação explanar algumas reflexões e críticas que vem surgindo ao longo desse processo.

A repentina glamorizarão do Canabidiol (CBD), por parte das grandes mídias corporativas, pode esconder uma jogada de marketing envolvendo uma nota preta, digna da legalização da maconha – mas só para a indústria farmacêutica. Se o discurso que vem sendo adotado não for reavaliado, corremos o risco de sofrer uma legalização parcial e ineficaz para a maioria dos afetados por essa questão. Complicou? Vamos dichavar.

O óleo se chama, em inglês, Hemp Oil (RSO), que na fiel tradução significa Óleo de Maconha, e o “RSO” vem de Rick Simpson Oil, Óleo de Rick Simpson, pois ele foi e é o principal responsável pela redescoberta do óleo. Se prestarem atenção, em praticamente todo lugar que se abordou o caso do óleo de maconha, ele não foi chamado por esse nome. O medicamento esta sendo chamado de “Óleo de CBD”, numa clara tentativa de desassociação da imagem da maconha e toda a questão recreativa, tráfico de drogas, etc. Essa nomenclatura foi largamente utilizada pela mídia de massa e transmitiu à população uma falsa impressão do que é o óleo e do que é um tratamento à base de maconha medicinal. Muitas mães também passaram a adotar a expressão “Óleo de CBD”, e isso compromete ainda mais a dinâmica do processo.

Então antes de mais nada, devemos esclarecer (inclusive para as “mães do CBD”) o que é maconha medicinal e como é feito o tratamento à base dessa planta. Já publicamos anteriormente um artigo dedicado à esse tema, mas resumindo, a maconha é uma planta (a única) que possui agentes químicos chamados canabinóides. Esses canabinóides interagem com nosso corpo e são responsáveis tanto pelos efeitos medicinais, quanto os psicoativos – que também não deixam de ser medicinais. A planta da maconha possui dezenas de canabinóides diferentes, responsáveis por diferentes funções e benefícios para a saúde.

O CBD é apenas um dos inúmeros canabinóides disponíveis na planta da maconha. Ele recebe uma atenção especial por ser o segundo em quantidade e não-psicoativo, balanceando os efeitos psicoativos do canabinóide mais abundante de todos, seu primo THC. Apesar disso, o THC também tem importantes efeitos medicinais, como nos casos de esclerose múltipla e depressão, além de ter efeitos anti cancerígenos. Existe uma grande variedade de disponíveis na maconha, inclusive no óleo de maconha. E agora chegamos no “x” da questão.

A indústria farmacêutica se preocupa mais com lucro do que com a saúde dos pacientes.

A indústria farmacêutica se preocupa mais com lucro do que com a saúde dos pacientes.

A lógica da indústria farmacêutica é dividir, isolar, multiplicar, engarrafar e vender. E a lei do lucro é a maior constante em qualquer indústria, e com a farmacêutica não seria diferente. Porém, a maconha exige uma atenção especial dessa indústria, pois tem o potencial para arruinar seus negócios. Isso faz com que as grandes farmacêuticas desejem controlar a produção e distribuição de maconha medicinal, para que não sofram grandes prejuízos por conta de outros produtores. Dessa forma, a plena legalização da maconha é o pior pesadelo da chamada “Big Pharma”. Imagine o dinheiro que deixariam de ganhar se cada um pudesse plantar seu medicamento dentro da própria casa?

A maconha é a planta mais versátil e medicinal do planeta. Poderia facilmente substituir a grande maioria dos medicamentos que estão disponíveis hoje nas prateleiras das farmácias. De remédio pra dor à vitamínicos e complementos alimentares, o uso da maconha medicinal tira o lucro da indústria. Dominar e controlar essa planta é certamente um objetivo para Bayer e outras.

Na verdade, a indústria farmacêutica já está preparando terreno visando a legalização. Representantes das maiores empresas já estão sondando os profissionais da saúde que estão na linha de frente da legalização no Brasil, comparecendo em eventos da classe médica, entre outras iniciativas para investigar como está se dando o processo e qual a melhor forma de lucrarem com isso. Não precisamos de um medicamento feito de maconha, pois a maconha em si é o próprio medicamento.

Mudando o discurso

Então agora vamos voltar para o discurso que vem sendo adotado tanto pelas mães, como pelas mídias de massa, o tal do “Óleo de CBD”.

É preciso que todos entendam, principalmente as mães, que esse “Óleo de CBD” é na verdade Óleo de Maconha, e que o que essas crianças estão ingerindo é um extrato que possui também todos os outros canabinóides da planta. A diferença pode estar nas quantidades de cada canabinóide, pois a maconha possui diversas linhagens e cada linhagem possui quantidades diferentes de canabinóides. Através de cruzas e outras técnicas de cultivo, é possível desenvolver uma planta com alto índice desse ou daquele canabinóide. É o caso do óleo que Anny está utilizando contra a epilepsia. Ele é feito de uma planta que possui pouco THC e muito CBD, porém não significa que não tenha THC, ou THCA, ou THCV, ou CBN, ou CBG, ou qualquer uma das outras dezenas de canabinóides disponíveis na maconha.

Também é importante lembrar que o óleo não serve só para epilepsia, muito menos só para crianças. O óleo de maconha é entre outras coisas, a cura do câncer! Milhões de pacientes podem ser beneficiados pelo uso do óleo, pois ele é basicamente um extrato da planta com todos seus benefícios medicinais. O óleo ajuda quem sofre de epilepsia, câncer, esclerose múltipla, dores crônicas, glaucoma, depressão e muitas outras condições.

Por isso, é de extrema importância que todos os envolvidos nesse processo de legalização parcial mudem o discurso/nomenclatura e apoiem também a legalização completa. É compreensível que muitas mães não queiram se envolver com outras questões a não ser o CBD: algumas são de classe média/alta, poucas (se não nenhuma) já tiveram algum contato com maconha antes, o medo do preconceito (as vezes delas próprias) somado com a falta de informação sobre maconha, etc. Mas essa postura precisa mudar, inclusive para o benefício de seus próprios filhos. Elas precisam se unir aos ativistas que estão na luta pela legalização recreativa e industrial também, pois só assim poderemos construir uma regulamentação justa e benéfica para todos.

Na verdade, o discurso já está mudando, como podemos ver nesse vídeo:

 

 

Se tudo der certo hoje, a Anvisa deve reclassificar o CBD, autorizando no caso a prescrição e importação do medicamento. Porém para importar custa de U$ 300 à U$ 500, e nem todas as famílias e pacientes tem condições de arcar com um tratamento de valor tão elevado. E ai vem o bote da indústria, que se apresentará com a “boa intenção” de produzir o medicamento para baratear os custos finais do paciente. Essa produção poderá ser feita em solo brasileiro ou lá fora, como é o caso do Sativex, mas em ambos os casos, o valor será elevado e a situação dos pacientes que precisam de outros canabinóides não fica resolvida, muito menos a questão dos usuários recreativos e jardineiros que plantam em casa.

Falando em Sativex, é bom lembrar que ele também será muito propagandeado aqui no Brasil. Seguindo a linha do óleo de maconha industrializado, o Sativex vai ser uma segunda opção em CBD para aqueles que precisam desse tratamento. Porém, como tudo industrializado, não é tão bom quanto o natural.

A maconha possui um efeito de entrega (Entourage Effect), no qual todos os canabinóides interagindo juntos no organismo provocam um efeito muito melhor do que algum deles isolado. No caso do medicamento com canabinóides isolados, os efeitos colaterais costumam ser bem mais desagradáveis que consumindo o coquetel de canabinóides, podendo variar de uma simples indisposição à dores, tonturas e desorientação. Em alguns casos específicos, pode ser que o isolamento dos canabinóides possa ser uma necessidade, mas para grande maioria dos pacientes não é.

Outras alternativas

Caso o CBD seja reclassificado, uma janela de oportunidades será aberta e cabe à todos envolvidos nesse processo não deixar que ela se feche: por que importar ou comprar da indústria, se podemos desenvolver várias outras alternativas mais viáveis e saudáveis?

É o grande momento de discutirmos meios de produção de óleo de maconha em território nacional. Produzir o óleo não é difícil, o maior problema mesmo é conseguir maconha suficiente. Muitos jardineiros tupiniquins sabem como produzir um óleo de excelente qualidade, inclusive já até publicamos um artigo especial dedicado ao Óleo de Maconha (RSO). A grosso modo, qualquer pessoa pode produzir seu próprio óleo em casa, basta ter o conhecimento e material disponível.

Dessa forma, quem ganha com o óleo industrializado? A “Big Pharma” ganha, com certeza. Podemos desenvolver cooperativas medicinais, associações canábicas, convênios, etc. As possibilidades são muitas e sem dúvida barateariam o tratamento médico a base de maconha medicinal. Surge ai possibilidade do tratamento com a planta in natura, não só na forma do óleo super concentrado. E é nesse sentido que o debate tem que ser construído.

Um passo de cada vez sim, mas quanto antes as “mães do CBD”  caírem de cabeça no movimento e se unirem aos jardineiros, melhor e mais rápido será o processo. A bola da vez é a questão do CBD, e essas famílias tem a atenção da mídia nacional voltada para elas. Se hoje, um jardineiro tentar falar sobre legalizar o plantio de maconha, provavelmente será descriminado e ridicularizado. Mas se as mães dessas crianças começarem a questionar a importação do óleo, a produção e distribuição, modelos para se viabilizar tudo isso… com certeza o avanço será muito maior. Talvez não saibam o poder que tem em mãos nesse momento. Mesmo com três outras iniciativas de legalização em tramitação no Congresso, com certeza os maiores avanços virão da questão do óleo de maconha.

Regulamentar o uso da maconha medicinal é uma questão de respeito e dignidade, para crianças e adultos. Mas se não tomarmos cuidados, ficaremos reféns de uma indústria que além de não querer perder mercado, pretende aumentar os lucros e dominar a produção desse valioso medicamento. Quanto mais se repete o discurso do “Óleo de CBD”, mais distante ficamos de finalmente libertar a planta. Agora é, mais do que nunca, o melhor momento para a união entre pacientes e jardineiros. Se essa turma se juntar, não tem proibicionismo ou interesse que freie a legalização no Brasil.

 

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5 respostas em “CBD também é maconha e pode ser produzido em casa

  1. Pingback: Entourage Effect: a comitiva de canabinóides | CHARAS

  2. Pingback: Finalmente, a vitória do THC | CHARAS

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  4. ártGO bem explicado, gostei, parabéns. minha filha usa o óleo de canabis, e as melhoras estão sendo incríveis, da media de 20 crises diárias , hj ela tem uma média de 0 a 4 crise diárias e já com metade da medicação que usava antes do óleo, e espero que logo possamos fabricar, formar associações, ong, enfim, criar formas w maneiras p fabricação e fornecimento p as pessoas que precisam.

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