Finalmente, a vitória do THC

Tribunal de Justiça de Minas Gerais concede, pela primeira vez, o direito de um paciente importar medicamento à base de maconha rico em THC, o principal canabinóide da maconha.

Se ainda restava alguma dúvida, agora podemos falar de boca cheia: a legalização começou no Brasil! No futuro, quando os livros de história abordarem esse assunto, provavelmente dirão que 2014 foi o ano em que tudo começou. Claro que temos mais de uma década de trabalho pró-legalização no país, mas nunca tivemos tantos avanços em termos legais quanto agora.

Ainda que um tanto quanto esquizofrênico, o processo de legalização vem avançando e ganhando força ao longo do ano. Importar o Óleo de Maconha, rico em canabidiol (CBD), já é uma realidade – mas claro, só para aqueles que podem pagar.

Começou em Abril com o caso da pequena Anny Fisher, primeira paciente a ganhar na Justiça o direito de importar um medicamento à base de maconha. Hoje já temos mais de uma dezena de pacientes beneficiados por esse mesmo direito, onde a Anvisa é obrigada a autorizar a importação dos medicamentos.

Porém o discurso adotado está um pouco equivocado, na medida em que muitos pais (e até alguns pacientes) utilizam um tom individualista, sem atentar para a verdadeira questão da maconha e a realidade da causa medicinal. Na tentativa de se desvencilhar da imagem negativa que a sociedade tem da maconha, esses pais e pacientes praticam uma estratégia que merece ser revista. Pior ainda porque esta é uma iniciativa apoiada pela mídia de massa, que continua fazendo de tudo para maquiar a questão da maconha medicinal, chamando o remédio de CBD.

Falar de maconha recreativa é praticamente proibido, mas não se tocam que a ilegalidade da maconha afeta tanto seus filhos que precisam de tratamento quanto o jovem negro na periferia que sofre as consequências dessa guerra desastrosa e sanguinária. Na Paraíba, muitos manifestantes da maconha medicinal usavam uma camiseta estampada “Canabidiol Já”, mas porque não “Maconha Já”? É importante ter uma visão global da questão, pois diz respeito à vida de muitas pessoas.

Essas autorizações que vem sendo concedidas, são um começo, mas não o objetivo. Importar o óleo é caro, precisamos de uma alternativa de produção nacional e que possa atingir muito mais pacientes. E não somente aqueles que necessitam do canabidiol, mas tantos outros que também precisam de THC e outros canabinóides – como no caso de pacientes que sofrem de dores crônicas e esclerose múltipla por exemplo.

O canabidiol é apenas um dentre dezenas de canabinoides da planta da maconha, que são tão medicinais quanto. Quando uma pessoa se refere, reproduz, comunica a questão da maconha medicinal, como “Canabidiol”, Óleo de CBD”, “o CBD do meu filho”… ela está claramente fazendo um desfavor para a luta de muitos outros pacientes. Pois não existe “Óleo de CBD” e sim Óleo de Maconha rico em CBD. O óleo que todos os autorizados importam, que os pais dão as crianças, não é isento de THC e outros canabinóides. Quem ingere este óleo, de certa forma está ingerindo a maconha completa, só que com níveis de canabinóides diferentes.

Mas, finalmente, parece que o THC vai ganhar seu espaço no debate! O tetraidrocanabinol faz parte da lista de substâncias proibidas no país pela Anvisa, mas é importantíssimo para tratar dores e espasmos. E foi com base em estudos internacionais e sua própria experiência de vida, que a moradora de Belo Horizonte, Juliana Paolinelli entrou na Justiça pelo seu direito de utilizar e importar um medicamento à base de maconha, rico em THC.

Ela sofre fortes dores crônicas e espasmos causados por um sério problema em sua coluna. Após tentar diversas alternativas, inclusive a forte morfina, Juliana encontrou na maconha um alívio que não conheceu com nenhum outro medicamento. Porém, a maconha que ela tem acesso no Brasil é de péssima qualidade, suja e imprópria para o consumo medicinal e mesmo utilizando desta péssima alternativa, ainda tem resultados melhores do que com os tradicionais medicamentos industrializados.

No documentário DOR, parte integrante da campanha Repense, Juliana explica sua condição e como a maconha faz diferença em sua vida.

 

 

A decisão saiu no último dia 22 de agosto e agora a Anvisa é obrigada a autorizar a importação do Sativex. Esta é uma vitória não só da Juliana, mas da maconha medicinal como um todo. É um momento em que o THC é reconhecido judicialmente como substância medicinal e autorizado para o tratamento de um paciente. O papo de “meu CBD” acabou! Esta aí a prova de que precisamos autorizar a maconha e não suas frações. É um importante passo que ajudará a trilhar um novo caminho daqui pra frente, pelo menos na esfera do discurso e do debate.

Juliana é a primeira paciente a conseguir quebrar o preconceito contra o THC e esta vitória sempre será lembrada. Da mesma forma que muitos pacientes surgiram pedindo o uso do óleo de maconha rico em CBD, outros tantos surgirão reivindicando o uso do THC também e cada vez mais o assunto será a maconha medicinal e não só esta ou aquela parte da planta.

É claro que a sonhada legalização, nos moldes que pacientes e usuários recreativos desejam ainda está um tanto quanto longe, principalmente porque estamos em ano de eleições e mencionar legalizar a maconha não é a pauta principal. Mas ainda assim, ninguém pode negar que o processo começou. Da mesma forma que nos EUA, aqui a maconha começa a ser legalizada pela necessidade medicinal.

Precisamos continuar avançando nesse sentido e desenvolver formas mais viáveis de obtenção da medicina. Por hora, as autorizações judiciais servem para quebrar o estigma negativo da planta, mas está longe de ser uma solução definitiva para essa questão.

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Uma resposta em “Finalmente, a vitória do THC

  1. Pingback: Uso da maconha para fins medicinais | turma2006cesc

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