Crippa em xeque: médico brasileiro quer lucrar com o CBD sintético

A fim de esclarecer a questão sobre a “regulamentação” do canabidiol, a jornalista e estudiosa Susan Witte, autora do livro “O Uso Medicinal da Cannabis”, escreveu um artigo muito interessante em seu site. Trata-se de uma espécie de “dossiê Crippa”, onde os interesses obscuros desse médico podem ser melhor analisados.

No dia 15 de janeiro de 2015, atendi o celular sem reconhecer o número na tela. O Dr. José Alexandre Crippa nunca havia me passado seu número de celular, insistia no número do escritório onde eu nunca o encontrava. Meses após tentar entrevistá-lo – sem sucesso – Crippa me ligava em meu celular, educadamente perguntando se eu tinha tempo para ouvi-lo. Teria ele mudado de ideia? Por que, de repente, uma jornalista independente, sem qualquer vínculo com uma grande emissora, valia uma ligação? Quem sabe a decisão da Anvisa no dia anterior em reclassificar o CBD tivesse liberado seu stress e sua agenda e ele finalmente poderia me conceder aquela entrevista.

Ele me chamou pelo nome, Susan, e começou a falar, soava animado. Crippa dizia não poder estar mais feliz com a decisão da Anvisa. Era hora de colocar as mãos na massa, dizia. Entranhei o tom familiar com que me contava essas coisas, mas continuei ouvindo, ainda tentando compreender o propósito da ligação. Ele estava no aeroporto de Brasília, aguardando seu voo, e me contava sobre seus planos, os próximos passos a serem tomados. Estava muito contente em anunciar uma parceria com um laboratório europeu e que viajaria em breve a Edimburgo, na Alemanha, para buscar 1 kg de CBD.

“CBD natural ou sintético?”, perguntei, ainda confusa, mas curiosa. Ele pausou por um segundo, não esperava a pergunta, mas resolveu explicar. “É um semissintético”, disse. “E você pretende fazer testes clínicos com ele?”, perguntei em seguida. Crippa explicou que testes clínicos não seriam necessários, ele usaria o medicamento em pacientes para registrar os resultados; já estava tudo encaminhado. Ele disse algo sobre eu ter sido selecionada, junto com outros. Ele sabia quem eu era? Me chamara pelo nome, não podia estar me confundindo com outra pessoa ou ter ligado no número errado. Prossegui com minhas perguntas: “Mas, se as crianças com epilepsia têm usado extratos naturais, com outros canabinoides, não é possível que o CBD isolado não funcione?”.

Crippa então me explicou que esse era um argumento usado para enganar as pessoas: “Tem um grupo de pessoas que querem legalizar o recreativo e são contra o puro, porque aí cai o argumento deles”. Decidiu usar os irmãos Stanley (donos de um dispensário no Colorado) como exemplo, afirmando que eles têm uma “fabriqueta quase artesanal” e que eles usam o argumento de que o THC é necessário por interesse comercial, já que o produto que eles têm possui cerca de 1% de THC. Crippa explicou que, como o produto deles é natural e, portanto, impuro, eles têm interesse em publicar que outros compostos são necessários.

Ele disse ainda que muitos usam o argumento de que há um “efeito comitiva” (efeito em que os componentes de uma planta, após ela ter sido consumida, interagem entre si no organismo humano, agindo de forma diferente desses mesmos componentes isolados) no produto natural, mas que isso não é aceito na academia. Segundo ele, não há provas científicas desse efeito, já que todos os estudos foram feitos com CBD isolado. Como os dispensários não conseguem fabricar o CBD isolado, porque sai muito caro, eles se posicionam contra. Todos os estudos sérios – e Crippa exemplifica aqui seus estudos usando o CBD isolado para o tratamento de Parkinson – foram desenvolvidos com componentes isolados.

Dr. Crippa então declarou, com ar triunfante, que “estamos muito próximos de ter um sintético no Brasil”. Haveria uma coletiva de imprensa em março para anunciar avanços nesse sentido. Ele assegurou que testes seriam necessários e que ainda levaria um tempo para ter tal medicamento disponível. Para que testes assim fossem desenvolvidos, precisaríamos de um sintético, já que “como não tem patente, o canabidiol não é de interesse da indústria farmacêutica”. Uma parceria com a indústria seria necessária para desenvolver os caríssimos testes clínicos, já que, nem eles em Ribeirão Preto (USP) conseguiriam arcar com esses custos, mesmo que obtivessem lucro no resultado.

Ele tem toda a razão. A indústria farmacêutica não tem qualquer interesse em fitoterápicos. Plantas não podem ser patenteadas, seus extratos podem ser produzidos por qualquer pessoa e, portanto, não há lucros bilionários a serem alcançados. Componentes sintéticos são outra história, mas são moléculas novas produzidas em laboratório e precisam de todo tipo de testes para serem aprovadas. O processo pode durar dez anos, talvez menos tempo se for acelerado. Uma das patentes de Crippa (de 2014) é o CBD fluorado, uma molécula me-too. Essas moléculas tendem a fazer a mesma coisa que a molécula que imitam, mas, por causa desse flúor que foi pendurado nela, pode ter interações diferentes no organismo, como aumentar ou diminuir a potência de seus efeitos. Estaria o médico contando com a pressão de pacientes desesperados na justiça e na imprensa para acelerar a aprovação de sua droga? Crippa disse ainda que os pais e pacientes podiam pressionar as autoridades para que o medicamento, depois de disponível, ficasse mais barato. Medicamentos recém-lançados, no auge de sua patente, costumam ser caros.

Ele voltou então a explicar que os extratos naturais eram perigosos, por dois motivos. O primeiro deles é que “ficamos preocupados com as impurezas”. Segundo o doutor, até mercúrio já foi encontrado nesses extratos importados. Ele diz não saber se os rumores são verdadeiros ou não, mas que há uma série de contaminantes nesses produtos, especialmente os vindos da China. Outro motivo para não aprovar os extratos naturais é a presença do THC. Segundo ele, o THC, em grandes quantidades pode causar convulsões nas crianças. Lembrei-me de ter ouvido esse argumento antes, não de estudos científicos (não há nada na literatura acadêmica indicando que o THC possa induzir convulsões, mas sim que o composto tem grande potencial para tratar doenças convulsivas), mas de mães assustadas. Crippa dizia que várias crianças que usaram medicamentos com THC voltaram a ter crises convulsivas violentas. Teria sido ele o responsável por espalhar esse rumor?

Exemplo de estudo indicando que a canábis tem efeito positivo em pacientes com convulsões:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2376682/?page=3

Ele também explicou que o THC em crianças pode aumentar a probabilidade de esses pacientes desenvolverem esquizofrenia, fazendo questão de citar o mesmo estudo sueco que cita em suas entrevistas. Essas conclusões são o que chamamos de “Bad Science”. Estudos que verificaram a relação entre o uso de canábis e esquizofrenia foram desenvolvidos (para simplificar bastante) de duas formas: contando quantos esquizofrênicos foram expostos ao uso da canábis ou quantos usuários de canábis desenvolveram esquizofrenia. De fato, há uma relação, já que muitos usuários de canábis desenvolvem esquizofrenia. Isso pode significar que a canábis causa esquizofrenia ou que pessoas com tendência à esquizofrenia têm propensão ao uso de drogas, sobretudo a maconha. Estudos longitudinais, no entanto, verificaram que o aumento no número de usuários de canábis na população não está relacionado a um aumento no número de esquizofrênicos. Ou seja, a relação entre a canábis e a esquizofrenia não é causal.

No entanto, alguns estudos concluem que a exposição à canábis leva ao aparecimento de esquizofrenia pacientes que de outra forma não a desenvolveriam. Alguns chegam até a determinar a relação entre a dosagem e a probabilidade dos sintomas psicóticos ocorrerem. É a ciência da imaginação. Podemos correlacionar qualquer coisa desta forma. O site de Tyler Vigen dá diversos exemplos disso, demonstrando que as conclusões mais absurdas podem surgir da má interpretação estatística. O link abaixo, por exemplo, mostra a correlação entre o número de afogamentos em piscinas e o número de filmes em que Nicolas Cage aparece. Podemos concluir que os filmes de Nicolas Cage causam afogamentos?

http://www.tylervigen.com/view_correlation?id=359

Temo que Crippa saiba disso tudo. Um estudo desenvolvido em 2014, que conta com a participação do médico, determinou que tanto o CBD quanto o Win 55212 (análogo sintético do THC, mas com potência superior) ajudam a reverter quadros psicóticos em modelos animais (ratos) de esquizofrenia. A seguir, o link para o estudo:

http://journal.frontiersin.org/Journal/10.3389/fphar.2014.00010/abstract

Existem ainda outros estudos (alguns em humanos, mas com um número pequeno de pacientes) em que a esquizofrenia foi tratada com THC apenas. Isso indica que a relação entre a canábis e distúrbios psicóticos é muito mais complexa do que Crippa tem afirmado, propositalmente dando a impressão de que o THC é perigoso, mas o CBD é bom, sozinho.

Eu havia conversado com diferentes famílias com crianças portadoras de epilepsia, e escutei que, em muitos casos, a presença do THC era necessária. Jason David, da Califórnia, conta que seu filho, Jayden, precisa de uma dose de THC superior a 1% para controlar suas crises. Plantas e extratos com doses menores não funcionaram. Contei o caso para o Dr. Crippa, que não se deixou abater com o argumento. Ele respondeu que seria uma questão de aumentar a dose de CBD, não haveria a necessidade do THC. Disse ainda que, no caso de um pai que não tem mais o que fazer, dar o extrato natural era a única alternativa. Nesses casos, era melhor que desse o medicamento impuro mesmo, mas Crippa estava confiante de que poderia fornecer uma alternativa superior com seu CBD isolado sintético.

Ele afirma, em seguida, que o THC não é tão perigoso para adultos e, portanto, também pretende desenvolver medicamentos com THC e CBD combinados para tratar, principalmente, a esclerose múltipla. Ele deixa claro, no entanto, que só quer desenvolver medicamentos “puros”, componentes isolados, nada natural. Apesar de ele ter afirmado que o efeito comitiva não era cientificamente aceito, ele menciona as interações entre o THC e o CBD e como elas podem ajudar o paciente.

A partir daí, Crippa passou a explicar procedimentos e perguntar sobre quais exames eu havia feito. Foi então que compreendi: “Acho que você está me confundindo com alguém, eu não sou paciente, sou jornalista”. Ele notou seu erro: julgando que falava com uma paciente, revelou uma série de informações sigilosas. Um comentário me chamou a atenção: “Bem que eu estranhei, você sabia tanta coisa”. Ele parecia bem consciente da falta de conhecimento de seus pacientes (não os julgo, é difícil mesmo encontrar informações confiáveis quando se trata de canábis) e ao notar que eu sabia um pouco mais passou a usar toda a sua habilidade argumentativa para me convencer de que o seu caminho era o mais indicado, o mais confiável. Talvez por isso advogava contra o THC com aqueles argumentos batidos.

Tentou então medir o estrago: “De que veículo você é?”. Expliquei que havia trabalhado em um projeto independente (se lembrou então de quem eu realmente era) e que não estava trabalhando pois me mudaria para a Inglaterra no mês seguinte. Achei que ele fosse entrar em pânico e desligar o telefone, mas foi muito educado. Crippa perguntou para qual cidade eu iria, já que ele mesmo fez pesquisas em Londres, me desejou sorte na carreira e, antes de desligar o telefone disse: “Eu falei algumas informações sigilosas para você, achando que era outra pessoa, não fala pra ninguém, tá?”.

Refleti sobre esse último pedido durante vários dias. Como jornalista, há um conflito ético com o qual eu teria que lidar. As informações caíram acidentalmente no meu colo, o que eu faria com elas? Pensei nas repercussões de revelá-las, conversei com algumas pessoas pedindo conselho. O peso de não revelar a estranha conversa, no entanto, parecia maior. Pacientes têm confiado na opinião de médicos, têm colocado suas esperanças na indústria, diversas pessoas foram iludidas a pensar que um medicamento natural era perigoso. Milhares de brasileiros estão sem tratamento hoje, enquanto um remédio eficaz poderia estar plantado em seus próprios quintais, de graça. Enquanto isso, pais perdem seus filhos para convulsões excessivas; famílias perdem entes queridos para o câncer, esclerose múltipla, Aids; pacientes sofrem desnecessariamente dores crônicas que os invalidam.

A decisão da Anvisa favoreceu o caminho mais longo, não necessariamente mais seguro, e mais lucrativo para a indústria. Enquanto a forma natural da canábis estiver proibida, a maior parte da população não terá acesso a esse tratamento. Enquanto as pessoas não tiverem informações sobre o assunto, a erva permanecerá proibida para uso medicinal. Eu não me perdoaria se segurasse informações e favorecesse esse caminho.

via Susan Witte Blog

 

Anvisa reclassifica o canabidiol

A reclassificação já era esperada e simboliza uma mudança muito importante, mas ainda não é o suficiente.

Hoje é um dia histórico para pacientes e ativistas que lutam pelo direito ao uso medicinal da maconha. Ainda que seja uma mudança singela, um importante passo está sendo dado e deve melhorar a condição de vida de muitos pacientes (os que puderem pagar pelo remédio).

Durante a primeira reunião pública do ano, a diretoria da Anvisa foi unanime e decidiu retirar o canabidiol da lista de substâncias de uso proscrito e liberar o uso de medicamentos à base da substância para venda controlada. Agora a substância deve integrar a “Lista C1” que é uma lista de remédios controlados que envolve uma série de medicamentos.

Apesar de ter sido um processo bastante conturbado até aqui, a mudança deverá facilitar a importação do óleo de cânhamo industrializado para pacientes e para pesquisas científicas.

Porém entre todos os interessados nessa reclassificação, a maior beneficiada se chama HempMeds, empresa distribuidora do RSHO, o óleo de canhamo industrializado, principal produto utilizado por aqueles que estão buscando esse tratamento. No mundo inteiro, a HempMeds já lucra milhões de dólares com a venda do óleo e agora acabou de ganhar carta branca no gigantesco mercado brasileiro.

Mesmo que seu produto seja bastante suspeito, de qualidade duvidosa e criticado por diversos pacientes e profissionais canábicos no mundo inteiro, a HempMeds começa o ano com a certeza de lucro no Brasil, um lucro astronômico. Isso deve dar um respiro para a empresa, que no cenário mundial sofre com inúmeras denúncias e está perdendo mercado, sofrendo com uma grande desvalorização de suas ações.

A reclassificação do canabidiol ainda não resolve toda a questão do uso da maconha medicinal e nesse caso, o horizonte não é tão animador. A maconha medicinal não se resume ao canabidiol, de forma que o THC é outro importantíssimo componente para o tratamento de milhares de pacientes como os que sofrem de câncer, esclerose multipla, dores crônicas, glaucoma, entre outras.

Uma esperança é que o CFM, da mesma forma que autorizou os médicos a prescreverem CBD, também autorize os médicos a prescreverem THC. Dessa forma os médicos poderão receitar o THC com segurança, gerando uma grande demanda e forçando a pauta no Anvisa.

Porém o THC é socialmente recriminado, pois é psicoativo e pode ser administrado de forma recreativa. Essa é uma outra luta que ainda deverá ser travada, dentro e fora da Anvisa, mas dessa vez não poderemos contar com criancinhas inocentes, brancas, de classe média/alta, para emocionar e sensibilizar sociedade, políticos e médicos.

Esta singela mudança, ainda implica na questão do acesso ao medicamento, que não foi resolvido. Ao final da reunião, um dos pais presentes se pronunciou de maneira a elogiar histórica decisão e informou que um novo projeto de lei deve ser encaminhado, com o objetivo de favorecer o acesso ao medicamento por parte de pacientes de baixa renda, de forma que o governo arque com as despesas.

Trata-se de uma alternativa bastante equivocada, pois a melhor forma de garantir o acesso àqueles que precisam é garantir o cultivo e produção nacional. Cooperativas medicinais e cultivo caseiro sequer foi mencionados durante a reunião. O Brasil possui jardineiros competentes o suficiente para produzir um óleo melhor que o da HempMeds, com custo mais baixo, mas infelizmente esse não é o foco das atuais discussões, somente entre os ativistas e pacientes pobres.

A reclassificação deve trazer algum alívio para muitas famílias, mas traz também uma certa indignação e sentimento de descaso com os milhares de pacientes que ainda sofrem com o preconceito contra a maconha e por isso tem seu tratamento proibido.

Os próximos capítulos dessa novela serão muito importantes, mas uma coisa já podemos adiantar: quem plantar seu remédio, vai ser preso.

 

Finalmente, a vitória do THC

Tribunal de Justiça de Minas Gerais concede, pela primeira vez, o direito de um paciente importar medicamento à base de maconha rico em THC, o principal canabinóide da maconha.

Se ainda restava alguma dúvida, agora podemos falar de boca cheia: a legalização começou no Brasil! No futuro, quando os livros de história abordarem esse assunto, provavelmente dirão que 2014 foi o ano em que tudo começou. Claro que temos mais de uma década de trabalho pró-legalização no país, mas nunca tivemos tantos avanços em termos legais quanto agora.

Ainda que um tanto quanto esquizofrênico, o processo de legalização vem avançando e ganhando força ao longo do ano. Importar o Óleo de Maconha, rico em canabidiol (CBD), já é uma realidade – mas claro, só para aqueles que podem pagar.

Começou em Abril com o caso da pequena Anny Fisher, primeira paciente a ganhar na Justiça o direito de importar um medicamento à base de maconha. Hoje já temos mais de uma dezena de pacientes beneficiados por esse mesmo direito, onde a Anvisa é obrigada a autorizar a importação dos medicamentos.

Porém o discurso adotado está um pouco equivocado, na medida em que muitos pais (e até alguns pacientes) utilizam um tom individualista, sem atentar para a verdadeira questão da maconha e a realidade da causa medicinal. Na tentativa de se desvencilhar da imagem negativa que a sociedade tem da maconha, esses pais e pacientes praticam uma estratégia que merece ser revista. Pior ainda porque esta é uma iniciativa apoiada pela mídia de massa, que continua fazendo de tudo para maquiar a questão da maconha medicinal, chamando o remédio de CBD.

Falar de maconha recreativa é praticamente proibido, mas não se tocam que a ilegalidade da maconha afeta tanto seus filhos que precisam de tratamento quanto o jovem negro na periferia que sofre as consequências dessa guerra desastrosa e sanguinária. Na Paraíba, muitos manifestantes da maconha medicinal usavam uma camiseta estampada “Canabidiol Já”, mas porque não “Maconha Já”? É importante ter uma visão global da questão, pois diz respeito à vida de muitas pessoas.

Essas autorizações que vem sendo concedidas, são um começo, mas não o objetivo. Importar o óleo é caro, precisamos de uma alternativa de produção nacional e que possa atingir muito mais pacientes. E não somente aqueles que necessitam do canabidiol, mas tantos outros que também precisam de THC e outros canabinóides – como no caso de pacientes que sofrem de dores crônicas e esclerose múltipla por exemplo.

O canabidiol é apenas um dentre dezenas de canabinoides da planta da maconha, que são tão medicinais quanto. Quando uma pessoa se refere, reproduz, comunica a questão da maconha medicinal, como “Canabidiol”, Óleo de CBD”, “o CBD do meu filho”… ela está claramente fazendo um desfavor para a luta de muitos outros pacientes. Pois não existe “Óleo de CBD” e sim Óleo de Maconha rico em CBD. O óleo que todos os autorizados importam, que os pais dão as crianças, não é isento de THC e outros canabinóides. Quem ingere este óleo, de certa forma está ingerindo a maconha completa, só que com níveis de canabinóides diferentes.

Mas, finalmente, parece que o THC vai ganhar seu espaço no debate! O tetraidrocanabinol faz parte da lista de substâncias proibidas no país pela Anvisa, mas é importantíssimo para tratar dores e espasmos. E foi com base em estudos internacionais e sua própria experiência de vida, que a moradora de Belo Horizonte, Juliana Paolinelli entrou na Justiça pelo seu direito de utilizar e importar um medicamento à base de maconha, rico em THC.

Ela sofre fortes dores crônicas e espasmos causados por um sério problema em sua coluna. Após tentar diversas alternativas, inclusive a forte morfina, Juliana encontrou na maconha um alívio que não conheceu com nenhum outro medicamento. Porém, a maconha que ela tem acesso no Brasil é de péssima qualidade, suja e imprópria para o consumo medicinal e mesmo utilizando desta péssima alternativa, ainda tem resultados melhores do que com os tradicionais medicamentos industrializados.

No documentário DOR, parte integrante da campanha Repense, Juliana explica sua condição e como a maconha faz diferença em sua vida.

 

 

A decisão saiu no último dia 22 de agosto e agora a Anvisa é obrigada a autorizar a importação do Sativex. Esta é uma vitória não só da Juliana, mas da maconha medicinal como um todo. É um momento em que o THC é reconhecido judicialmente como substância medicinal e autorizado para o tratamento de um paciente. O papo de “meu CBD” acabou! Esta aí a prova de que precisamos autorizar a maconha e não suas frações. É um importante passo que ajudará a trilhar um novo caminho daqui pra frente, pelo menos na esfera do discurso e do debate.

Juliana é a primeira paciente a conseguir quebrar o preconceito contra o THC e esta vitória sempre será lembrada. Da mesma forma que muitos pacientes surgiram pedindo o uso do óleo de maconha rico em CBD, outros tantos surgirão reivindicando o uso do THC também e cada vez mais o assunto será a maconha medicinal e não só esta ou aquela parte da planta.

É claro que a sonhada legalização, nos moldes que pacientes e usuários recreativos desejam ainda está um tanto quanto longe, principalmente porque estamos em ano de eleições e mencionar legalizar a maconha não é a pauta principal. Mas ainda assim, ninguém pode negar que o processo começou. Da mesma forma que nos EUA, aqui a maconha começa a ser legalizada pela necessidade medicinal.

Precisamos continuar avançando nesse sentido e desenvolver formas mais viáveis de obtenção da medicina. Por hora, as autorizações judiciais servem para quebrar o estigma negativo da planta, mas está longe de ser uma solução definitiva para essa questão.

Anvisa libera importação de CBD a criança de São Carlos (SP)

O paciente é portador da síndrome de Dravet, doença que causa de 30 a 40 convulsões por dia. Com liberação, criança poderá ter seu medicamento garantido por cerca de 3 meses.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou a Prefeitura de São Carlos (232 km de São Paulo) e a Secretaria Estadual da Saúde a importarem o CBD (canabidiol), composto extraído da maconha, ao menino João Alves, 7, portador da síndrome de Dravet.

Em junho, a Justiça determinou a compra imediata do produto, sob pena de multa diária de R$ 500 em caso de descumprimento.

A liberação da Anvisa chegou pelos Correios na casa da família de João, na tarde desta quarta-feira (6).

Foi permitido, em caráter excepcional, a compra de seis tubos de dez gramas do CBD –a quantidade é suficiente para três meses.

“Estou muito feliz e aliviada”, disse a mãe do garoto, Joseane Aparecida Alves, 30. Segundo ela, João tem de 30 a 40 crises convulsivas por dia.

Há cerca de três meses, a família importou o composto de forma ilegal –o uso do CBD é proibido no país. O composto não é psicoativo.

No entanto, os pais de João não têm dinheiro para arcar com os custos: cada tubo de pasta custa, em média, R$ 1.444. A renda mensal da família é de R$ 1.300.

Nos próximos dias, a Anvisa deverá analisar a liberação para a importação.

Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria Estadual da Saúde informou que já iniciou o processo de compra do CBD.

No entanto, afirmou que a PGE (Procuradoria Geral do Estado) deverá entrar com recurso para ampliar o prazo para o cumprimento da decisão judicial porque a pasta precisa seguir a lei de licitações e elaborar atas de registro de preços e licitações.

A prefeitura foi procurada, mas não se manifestou.

A discussão sobre a liberação do uso do CBD no país também acontece no CFM (Conselho Federal de Medicina), que aguarda o recebimento de resultados de pesquisas com o uso do CBD pela USP de Ribeirão Preto (313 km de São Paulo).

Segundo Emmanuel Cavalcanti, vice-presidente do CFM e que está a frente da comissão de novos procedimentos de medicina, o conselho está interessado em receber os resultados das pesquisas para que aprove a sua prescrição no país.

Segundo ele, é possível que essa aprovação aconteça em setembro. Depois disso, o CFM envia um parecer à Anvisa para pedir a liberação do uso no país e a importação.

via Folha

Médico desafia lei e dá derivado de maconha a pacientes

Após estudar canabidiol no exterior, profissional que atende em uma grande capital do País trouxe sementes e aprimorou o medicamento

O consultório com pacientes aboletados na antessala e uma secretária a conferir cartões de planos de saúde são cenas cotidianas na vida de William (nome fictício), um médico que há três anos protagoniza uma história clandestina de desafio à lei para trazer alívio a pessoas que, por causa de fortes dores, mal dormem ou trabalham.

Enquanto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não decide o destino do canabidiol, componente da maconha que integra a lista de substâncias proscritas do País, William prepara artesanalmente uma solução feita com o produto e a distribui gratuitamente para pacientes que não conseguem bons resultados com tratamentos tradicionais, sejam cirurgias ou medicamentos.

“Não foi fácil chegar a essa decisão”, conta. “No início, achava que a proposta de terapia com o canabidiol era apenas uma estratégia dos interessados em liberar a maconha: seria apenas o primeiro passo”, completa. Após analisar os estudos e diante do sofrimento de pacientes, narra, mudou de ideia.

O Estadão localizou o médico por meio de familiares de pessoas que sofrem de dores crônicas e o entrevistou por três horas em seu consultório, em um prédio comercial, no centro de uma grande capital. Por temer sanções da Justiça, o médico pediu que não fosse identificado.

O canabidiol não tem efeito psicoativo e é apontado em estudos como alternativa também para tratamentos neurológicos, comportamentais, epilepsia grave e sintomas causados pela quimioterapia. Há espécies de plantas com menos de 1% de THC (a substância com efeitos psicotrópicos) e altos teores de canabidiol.

O médico escolheu uma espécie com essas características, a Harle Tsu, para usar. No retorno de uma viagem ao exterior feita para estudar o canabidiol, ele trouxe sementes e as plantou em casa. Hoje, William extrai a substância ativa da planta, processa e, em uma terceira etapa, acrescenta glicerina.

A primeira pessoa a usar a solução de canabidiol preparada foi a sogra. “As fortes dores, provocadas por fibromialgia, foram controladas”, relata. Desde então, 40 pacientes já se trataram com canabidiol. Desse grupo, 20 mantiveram a prática. “Por diversas razões, como insegurança ou intolerância, as outras pessoas abandonaram.”

O médico oferece o medicamento a poucos pacientes. “Apenas para quem não responde a outras terapias e com quem tenho uma relação de confiança”, diz. Com o tempo, o cultivo da planta foi passado para amigos. “É preciso dedicação, tempo. Não conseguia conciliar.”

William nota que a solução causa efeitos colaterais, como dores de cabeça, náuseas ou diarreia, em algumas pessoas. Para tentar reduzir o problema, passou a dar a alguns pacientes o canabidiol para vaporização. A troca beneficiou Antonio, de 57 anos, licenciado por causa de uma doença degenerativa que atinge ossos e articulações. Por seis meses, ele usou a solução combinada com um derivado de morfina, que, sozinho, não aliviava as dores. “Ficava agitado, com dor de cabeça e dificuldade para dormir.” Agora, faz vaporizações. “O alívio é imediato. É um sucesso e tanto.”

Receita

William não vende o produto. “Não sei quanto investi na empreitada, com viagens e pesquisas, mas não quero ganhar dinheiro dessa forma.” Admite que se arrisca – pode ter problemas legais -, mas pensa no futuro. “Penso em novas estratégias terapêuticas.”

A Anvisa analisa a mudança de classificação do produto. Seu uso e comercialização poderiam ser feitos sob controle. A discussão começou após familiares de crianças com epilepsia grave reivindicarem o direito de importar o produto. Nos EUA, o canabidiol é vendido como suplemento alimentar. O relator do processo, Renato Porto, é contra a mudança. Diz que não há canabidiol puro – todos teriam algum traço de THC.

via Estadão

Anvisa adia decisão sobre importação de medicamento à base de maconha

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Agência avalia se remédio pode ser dispensado de autorização especial. Membro da Diretoria Colegiada pediu vista do processo.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) adiou a decisão sobre o processo de importação de medicamentos à base de canadibiol, substância encontrada na maconha.
Uma reunião da Diretoria Colegiada do órgão, em Brasília, nesta quinta-feira (29), deveria decidir se o canadibiol seria retirado da lista de substâncias de uso proscrito e entrar para a lista de substâncias de controle especial (comercializado com receita médica de duas vias). Porém um dos diretores pediu vista do processo, o que significa que a discussão foi adiada para uma sessão posterior, que deve ocorrer a partir do final de julho, em data ainda não definida.

Caso a mudança fosse aprovada, qualquer brasileiro com uma prescrição médica em mãos que recomenda um medicamento com o princípio ativo poderia entrar no país de maneira legal com o produto, ou recebê-lo por encomenda.

Atualmente, remédios com a substância estão em uma lista do órgão de Vigilância Sanitária que proibe o uso para fins terapêuticos, exceto quando há alguma autorização especial para importação, concedida pelo próprio diretor da agência ou ainda sentença jurídica com a mesma finalidade.

Resultados científicos

Em maio, o diretor-adjunto da Anvisa, Luiz Roberto Klassmann, disse ao G1 que a reclassificação poderia acontecer muito em breve, porque já existiriam evidências científicas suficientes que comprovam a eficácia da droga e sua segurança para uso terapêutico.

Ainda segundo ele, a partir do momento que o canabidiol deixasse de ser proscrito, problemas de barreira alfandegária acabariam. No entanto, Klassmann disse que era preciso vencer a barreira do preconceito e estigma do uso da maconha medicinal.

O que é o canabidiol?

Conhecida pela sigla CBD, a substância química tem utilidade médica para tratar diversas doenças, entre elas, neurológicas.

Pacientes utilizam o canabidiol para alívio de crises epilépticas, esclerose múltipla, câncer e dores neuropáticas (associadas a doenças que afetam o sistema nervoso central).

Nos Estados Unidos, 20 estados e a capital Washington têm legislação que autoriza o uso da maconha para fins medicinais.

via G1

 

CBD também é maconha e pode ser produzido em casa

 

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A legalização brasileira está em plena construção, mas que tipo de legalização queremos?

Quando os ativistas canábicos começaram o ano, jamais poderiam imaginar que o processo da sonhada legalização avançaria tanto em tão pouco tempo. De janeiro pra cá, nada menos que três iniciativas buscando legalizar a maconha foram encaminhadas no Congresso Federal: uma iniciativa popular que recebeu apoio de mais de 20 mil pessoas, cuja qual o relator é o senador Cristovam Buarque, e mais dois projetos de lei propostos pelos deputados Jean Wyllys e Euríco Junior. Mas o principal e mais forte impulso na legalização não veio da esfera política.

Além dessas iniciativas, houve um fato histórico e sem precedentes que abriu as portas para um novo nível no debate. Trata-se do caso da pequena Anny Fisher, uma garotinha de 5 anos que sofre de epilepsia e é tratada com maconha medicinal (até então importada ilegalmente por seus pais). O drama da família ganhou destaque nacional, por meio da internet e televisão. Após a divulgação na internet de um vídeo no qual Katiele Fisher (mãe de Anne) narra como o óleo de maconha ajuda nas crises e convulsões da filha, o caso chamou atenção da poderosa Rede Globo, que por sua vez transmitiu para milhões de brasileiros por meio de vários programas, jornais, revistas. O caso ficou bastante conhecido no país e pouco tempo depois a família ganhou na Justiça o direito de importar o medicamento feito à base de maconha. A decisão judicial impede a agência de barrar a importação do produto, que é legalizado nos Estados Unidos.

Esse fato também incentivou a mobilização de outras mães de crianças com epilepsia pela busca da autorização e utilização de importação, mães essas que estão em vias de formalizar uma associação em busca desse direito. Diante dos fatos e da crescente pressão, a ANVISA anunciou que estuda reclassificar o CBD e autorizar a prescrição de medicamentos à base do canabinóide.

Esta medida será votada hoje pelos diretores da agência e muito provavelmente será aprovada. Com esta decisão, a substância passará a integrar a lista de classificação C1, que permite a prescrição e a importação do composto em forma de medicamento. Este é sem dúvidas mais um passo importante em direção à plena legalização.

Interesses industriais

Mas que lindo seria se tudo fosse tão simples quanto parece né? É exatamente aqui que começam os problemas. Como mídia social e um dos principais canais canábicos brasileiros, o projeto Charas tem por obrigação explanar algumas reflexões e críticas que vem surgindo ao longo desse processo.

A repentina glamorizarão do Canabidiol (CBD), por parte das grandes mídias corporativas, pode esconder uma jogada de marketing envolvendo uma nota preta, digna da legalização da maconha – mas só para a indústria farmacêutica. Se o discurso que vem sendo adotado não for reavaliado, corremos o risco de sofrer uma legalização parcial e ineficaz para a maioria dos afetados por essa questão. Complicou? Vamos dichavar.

O óleo se chama, em inglês, Hemp Oil (RSO), que na fiel tradução significa Óleo de Maconha, e o “RSO” vem de Rick Simpson Oil, Óleo de Rick Simpson, pois ele foi e é o principal responsável pela redescoberta do óleo. Se prestarem atenção, em praticamente todo lugar que se abordou o caso do óleo de maconha, ele não foi chamado por esse nome. O medicamento esta sendo chamado de “Óleo de CBD”, numa clara tentativa de desassociação da imagem da maconha e toda a questão recreativa, tráfico de drogas, etc. Essa nomenclatura foi largamente utilizada pela mídia de massa e transmitiu à população uma falsa impressão do que é o óleo e do que é um tratamento à base de maconha medicinal. Muitas mães também passaram a adotar a expressão “Óleo de CBD”, e isso compromete ainda mais a dinâmica do processo.

Então antes de mais nada, devemos esclarecer (inclusive para as “mães do CBD”) o que é maconha medicinal e como é feito o tratamento à base dessa planta. Já publicamos anteriormente um artigo dedicado à esse tema, mas resumindo, a maconha é uma planta (a única) que possui agentes químicos chamados canabinóides. Esses canabinóides interagem com nosso corpo e são responsáveis tanto pelos efeitos medicinais, quanto os psicoativos – que também não deixam de ser medicinais. A planta da maconha possui dezenas de canabinóides diferentes, responsáveis por diferentes funções e benefícios para a saúde.

O CBD é apenas um dos inúmeros canabinóides disponíveis na planta da maconha. Ele recebe uma atenção especial por ser o segundo em quantidade e não-psicoativo, balanceando os efeitos psicoativos do canabinóide mais abundante de todos, seu primo THC. Apesar disso, o THC também tem importantes efeitos medicinais, como nos casos de esclerose múltipla e depressão, além de ter efeitos anti cancerígenos. Existe uma grande variedade de disponíveis na maconha, inclusive no óleo de maconha. E agora chegamos no “x” da questão.

A indústria farmacêutica se preocupa mais com lucro do que com a saúde dos pacientes.

A indústria farmacêutica se preocupa mais com lucro do que com a saúde dos pacientes.

A lógica da indústria farmacêutica é dividir, isolar, multiplicar, engarrafar e vender. E a lei do lucro é a maior constante em qualquer indústria, e com a farmacêutica não seria diferente. Porém, a maconha exige uma atenção especial dessa indústria, pois tem o potencial para arruinar seus negócios. Isso faz com que as grandes farmacêuticas desejem controlar a produção e distribuição de maconha medicinal, para que não sofram grandes prejuízos por conta de outros produtores. Dessa forma, a plena legalização da maconha é o pior pesadelo da chamada “Big Pharma”. Imagine o dinheiro que deixariam de ganhar se cada um pudesse plantar seu medicamento dentro da própria casa?

A maconha é a planta mais versátil e medicinal do planeta. Poderia facilmente substituir a grande maioria dos medicamentos que estão disponíveis hoje nas prateleiras das farmácias. De remédio pra dor à vitamínicos e complementos alimentares, o uso da maconha medicinal tira o lucro da indústria. Dominar e controlar essa planta é certamente um objetivo para Bayer e outras.

Na verdade, a indústria farmacêutica já está preparando terreno visando a legalização. Representantes das maiores empresas já estão sondando os profissionais da saúde que estão na linha de frente da legalização no Brasil, comparecendo em eventos da classe médica, entre outras iniciativas para investigar como está se dando o processo e qual a melhor forma de lucrarem com isso. Não precisamos de um medicamento feito de maconha, pois a maconha em si é o próprio medicamento.

Mudando o discurso

Então agora vamos voltar para o discurso que vem sendo adotado tanto pelas mães, como pelas mídias de massa, o tal do “Óleo de CBD”.

É preciso que todos entendam, principalmente as mães, que esse “Óleo de CBD” é na verdade Óleo de Maconha, e que o que essas crianças estão ingerindo é um extrato que possui também todos os outros canabinóides da planta. A diferença pode estar nas quantidades de cada canabinóide, pois a maconha possui diversas linhagens e cada linhagem possui quantidades diferentes de canabinóides. Através de cruzas e outras técnicas de cultivo, é possível desenvolver uma planta com alto índice desse ou daquele canabinóide. É o caso do óleo que Anny está utilizando contra a epilepsia. Ele é feito de uma planta que possui pouco THC e muito CBD, porém não significa que não tenha THC, ou THCA, ou THCV, ou CBN, ou CBG, ou qualquer uma das outras dezenas de canabinóides disponíveis na maconha.

Também é importante lembrar que o óleo não serve só para epilepsia, muito menos só para crianças. O óleo de maconha é entre outras coisas, a cura do câncer! Milhões de pacientes podem ser beneficiados pelo uso do óleo, pois ele é basicamente um extrato da planta com todos seus benefícios medicinais. O óleo ajuda quem sofre de epilepsia, câncer, esclerose múltipla, dores crônicas, glaucoma, depressão e muitas outras condições.

Por isso, é de extrema importância que todos os envolvidos nesse processo de legalização parcial mudem o discurso/nomenclatura e apoiem também a legalização completa. É compreensível que muitas mães não queiram se envolver com outras questões a não ser o CBD: algumas são de classe média/alta, poucas (se não nenhuma) já tiveram algum contato com maconha antes, o medo do preconceito (as vezes delas próprias) somado com a falta de informação sobre maconha, etc. Mas essa postura precisa mudar, inclusive para o benefício de seus próprios filhos. Elas precisam se unir aos ativistas que estão na luta pela legalização recreativa e industrial também, pois só assim poderemos construir uma regulamentação justa e benéfica para todos.

Na verdade, o discurso já está mudando, como podemos ver nesse vídeo:

 

 

Se tudo der certo hoje, a Anvisa deve reclassificar o CBD, autorizando no caso a prescrição e importação do medicamento. Porém para importar custa de U$ 300 à U$ 500, e nem todas as famílias e pacientes tem condições de arcar com um tratamento de valor tão elevado. E ai vem o bote da indústria, que se apresentará com a “boa intenção” de produzir o medicamento para baratear os custos finais do paciente. Essa produção poderá ser feita em solo brasileiro ou lá fora, como é o caso do Sativex, mas em ambos os casos, o valor será elevado e a situação dos pacientes que precisam de outros canabinóides não fica resolvida, muito menos a questão dos usuários recreativos e jardineiros que plantam em casa.

Falando em Sativex, é bom lembrar que ele também será muito propagandeado aqui no Brasil. Seguindo a linha do óleo de maconha industrializado, o Sativex vai ser uma segunda opção em CBD para aqueles que precisam desse tratamento. Porém, como tudo industrializado, não é tão bom quanto o natural.

A maconha possui um efeito de entrega (Entourage Effect), no qual todos os canabinóides interagindo juntos no organismo provocam um efeito muito melhor do que algum deles isolado. No caso do medicamento com canabinóides isolados, os efeitos colaterais costumam ser bem mais desagradáveis que consumindo o coquetel de canabinóides, podendo variar de uma simples indisposição à dores, tonturas e desorientação. Em alguns casos específicos, pode ser que o isolamento dos canabinóides possa ser uma necessidade, mas para grande maioria dos pacientes não é.

Outras alternativas

Caso o CBD seja reclassificado, uma janela de oportunidades será aberta e cabe à todos envolvidos nesse processo não deixar que ela se feche: por que importar ou comprar da indústria, se podemos desenvolver várias outras alternativas mais viáveis e saudáveis?

É o grande momento de discutirmos meios de produção de óleo de maconha em território nacional. Produzir o óleo não é difícil, o maior problema mesmo é conseguir maconha suficiente. Muitos jardineiros tupiniquins sabem como produzir um óleo de excelente qualidade, inclusive já até publicamos um artigo especial dedicado ao Óleo de Maconha (RSO). A grosso modo, qualquer pessoa pode produzir seu próprio óleo em casa, basta ter o conhecimento e material disponível.

Dessa forma, quem ganha com o óleo industrializado? A “Big Pharma” ganha, com certeza. Podemos desenvolver cooperativas medicinais, associações canábicas, convênios, etc. As possibilidades são muitas e sem dúvida barateariam o tratamento médico a base de maconha medicinal. Surge ai possibilidade do tratamento com a planta in natura, não só na forma do óleo super concentrado. E é nesse sentido que o debate tem que ser construído.

Um passo de cada vez sim, mas quanto antes as “mães do CBD”  caírem de cabeça no movimento e se unirem aos jardineiros, melhor e mais rápido será o processo. A bola da vez é a questão do CBD, e essas famílias tem a atenção da mídia nacional voltada para elas. Se hoje, um jardineiro tentar falar sobre legalizar o plantio de maconha, provavelmente será descriminado e ridicularizado. Mas se as mães dessas crianças começarem a questionar a importação do óleo, a produção e distribuição, modelos para se viabilizar tudo isso… com certeza o avanço será muito maior. Talvez não saibam o poder que tem em mãos nesse momento. Mesmo com três outras iniciativas de legalização em tramitação no Congresso, com certeza os maiores avanços virão da questão do óleo de maconha.

Regulamentar o uso da maconha medicinal é uma questão de respeito e dignidade, para crianças e adultos. Mas se não tomarmos cuidados, ficaremos reféns de uma indústria que além de não querer perder mercado, pretende aumentar os lucros e dominar a produção desse valioso medicamento. Quanto mais se repete o discurso do “Óleo de CBD”, mais distante ficamos de finalmente libertar a planta. Agora é, mais do que nunca, o melhor momento para a união entre pacientes e jardineiros. Se essa turma se juntar, não tem proibicionismo ou interesse que freie a legalização no Brasil.